Um blog do Ministério Fiel
Reflexões cristãs para o Ano Novo
O tempo nas mãos de Deus
Escrever é, em muitos aspectos, revelar segredos ─ não apenas dos conteúdos pesquisados, mas de nós mesmos, manifestos na forma como interpretamos, nas ênfases que escolhemos e nos silêncios que guardamos. A escrita carrega esse poder de nos expor, mesmo quando não temos plena consciência disso.
O fim do ano costuma despertar em mim reflexões sobre o tempo e a história. Há uma dimensão nostálgica, mas também uma reafirmação da fé no governo providente de Deus. Ele conduz a história independentemente de como a classificamos. Deus permanece no controle. Para os cristãos, essa convicção é ao mesmo tempo fonte de consolo e de responsabilidade, pois nos lembra que somos chamados a participar de sua obra no mundo.
Assim, cada encerramento de ciclo nos convida a olhar para trás com memória e para frente com confiança. O tempo passa, mas a certeza permanece: Deus dirige a história, e nós seguimos como agentes de sua vontade.
1. A concepção cristã do tempo
O Cristianismo introduziu ao Ocidente uma visão linear do tempo: início, meio e fim. Diferente das culturas pagãs, que concebiam o tempo como cíclico, a fé cristã o entende como criação de Deus. O tempo é real e objetivo, mas em nossa experiência pode parecer rápido ou lento, aliado ou inimigo, conforme as circunstâncias.
Agostinho (354-430) o descreveu como mistério: sabemos o que é até que alguém nos peça para explicá-lo.[1] Borges (1899-1986) o chamou de “ilusão”.[2] Contudo, para o cristão, o tempo está sob a direção de Deus. Ele é Senhor do tempo, e cada instante é parte de seu plano eterno.
Tempo e eternidade
Na eternidade não haverá tempo como medida de sucessão. O tempo pertence à criação e cumpre seu papel até o fim dos séculos. Comparado à eternidade, todo o tempo humano é apenas uma gota d’água. Essa perspectiva nos chama à humildade e à confiança.
Tempo como oportunidade
Lutero (1483-1546) lembrava que procrastinação e precipitação são igualmente prejudiciais. O tempo é oportunidade dada por Deus. Aproveitá-lo é viver em obediência e gratidão.[3]
2. O Cristianismo como religião histórica
O Cristianismo não se fundamenta em lendas, mas em fatos históricos. A criação, a queda, a promessa, o dilúvio, a encarnação, morte e ressurreição de Cristo são eventos reais. Sem eles, a fé cristã perde seu sentido. A revelação de Deus acontece na história, e a Escritura registra esses atos como testemunho.
Jesus Cristo é o centro da história. Ele não apenas ensinou, mas viveu e realizou a obra redentora. Sem o Cristo histórico, não há Cristianismo. Por isso, a fé cristã é memória: recordar os feitos de Deus fortalece nossa esperança e nos desafia à fidelidade.
Cristo: o próprio Cristianismo
Cristo não apenas aponta o caminho; Ele é o caminho. Sem sua pessoa e obra, não há fé cristã. Como afirmou Bavinck (1854-1921), Cristo é o próprio Cristianismo.[4] Stott (1921-2011) [5] e Lewis (1898-1963)[6] reforçam: ou Jesus é Deus e digno de adoração, ou é um impostor. Não há meio-termo.
A Igreja primitiva pregava com base na certeza da ressurreição. Esse fato histórico é o fundamento da experiência cristã. Sem ele, restaria apenas religiosidade vaga.
3. O sentido da história
Deus é Senhor da história. Não apenas da “história da Igreja”, mas de toda a história humana. Cada acontecimento, mesmo os “atos livres” dos homens, concorre para o cumprimento do plano divino. José foi vendido por seus irmãos, mas Deus transformou o mal em bem. Cristo foi crucificado, mas os homens, agindo livremente, cumpriram a vontade de Deus.
A história é execução do plano divino, conduzindo tudo para sua glória. Ela caminha rumo à eternidade, não por evolução humana, mas pela consumação em Cristo. A história só encontra sentido como revelação do propósito de Deus.
A Igreja como sinal do eterno no tempo
A Igreja é manifestação da sabedoria de Deus no tempo. Planejada na eternidade, formada na história, ela testemunha o Reino de Cristo. Embora imperfeita, é sinal da presença e antecipação da consumação futura. Como disse Calvino (1509-1564), a Igreja é o teatro da glória de Deus.[7]
4. Graça, arrependimento e perdão
O tempo também revela nossa fragilidade. Nos salmos, vemos homens clamando pela graça de Deus em meio à dor e angústia. O pedido não é baseado em mérito ou barganha, mas na misericórdia divina. A palavra hebraica hesedh expressa essa fidelidade amorosa de Deus.
A graça é o fio que atravessa a história. Ela nos chama ao arrependimento e nos oferece perdão. Sem graça, o tempo seria apenas condenação. Com graça, o tempo se torna oportunidade de reconciliação e vida.
5. O tempo como responsabilidade cristã
O tempo é dom de Deus. Usá-lo bem é viver em obediência. Paulo exorta: “Remindo o tempo, porque os dias são maus” (Ef 5.16). Cada instante é ocasião para glorificar a Deus, servir ao próximo e testemunhar Cristo.
Paradoxos do tempo
Buscamos retardar seus efeitos com tratamentos e cirurgias, mas não podemos detê-lo. O tempo revela nossa finitude e nos lembra da eternidade. Ele pode ser aliado ou algoz, dependendo de como o usamos. A juventude deseja parecer mais velha; a maturidade, mais jovem. O tempo expõe nossos paradoxos e contradições.
6. O Ano Novo como oportunidade
O início de um novo ano é ocasião para refletir sobre o tempo nas mãos de Deus. Não se trata de superstição ou simples tradição, mas de reconhecer que cada ciclo é parte do plano divino. O cristão não teme o futuro, pois sabe que Deus dirige a história.
O Ano Novo nos chama a:
- Gratidão pelo tempo vivido.
- Arrependimento pelos pecados cometidos.
- Esperança no cuidado providente de Deus.
- Responsabilidade em usar bem o tempo que virá.
Considerações finais
O tempo é criação de Deus, instrumento de sua providência e cenário de sua revelação. Ele nos recorda a brevidade da vida e aponta para a eternidade que nos aguarda. Cristo, centro da história, confere sentido ao tempo e sustenta nossa esperança no futuro.
Neste Ano Novo, reafirmemos a certeza das Escrituras: o tempo está nas mãos de Deus. Vivamos cada dia com fé, gratidão e responsabilidade, conscientes de que a história caminha para sua consumação em Cristo.
Feliz Ano Novo!
[1]Agostinho, Confissões, São Paulo: Abril Cultural (Os Pensadores, v. 6), 1973, XI.14.17, p. 244.
[2]“O tempo, se podemos intuir essa identidade, é uma ilusão: a indiferenciação e a inseparabilidade de um momento de seu aparente ontem e de outro de seu aparente hoje, bastam para desintegrá-lo” (Jorge L. Borges, Historia de la Eternidad,Buenos Aires: Emecé Editores, (6. impresión), 1969, p. 29).
[3] Martinho Lutero, Conversas à Mesa, Brasília, DF.: Monergismo, 2017, # 892 p. 462.
[4]Herman Bavinck, Teologia Sistemática, Santa Bárbara d’Oeste, SP.: SOCEP., 2001, p. 311.
[5]Timothy Dudley, Cristianismo autêntico: 968 textos selecionados das obras de John Stott, São Paulo: Editora Vida, 2006, p. 44.
[6] C.S. Lewis, A essência do Cristianismo, São Paulo: ABU Editora, 1979, p. 29
[7] “A igreja é seu teatro em que contemplam, extasiados, a variada e multiforme sabedoria de Deus [Ef 3.10].” (João Calvino, As Institutas, III.20.23).

