Um blog do Ministério Fiel
Uma vez por todas — o sacrifício que nos purifica
O cumprimento da Páscoa e do sistema sacrificial na morte de Jesus, o verdadeiro Cordeiro
RESUMO: Jesus é o Cordeiro de Deus prometido no Antigo Testamento, o sacrifício perfeito que expia definitivamente o pecado. Desde o cordeiro da Páscoa em Êxodo até o sistema sacrificial de Levítico, a Escritura aponta para Cristo, cujo sangue traz redenção completa. Na cruz, ele cumpre a expiação final, restaurando pecadores ao relacionamento com Deus. Artigo escrito por Courtney Doctor, autora, professora bíblica, palestrante frequente em conferências e retiros, e blogueira ocasional. Ela recebeu seu mestrado em Divindade (MDiv) do Covenant Theological Seminary em 2013 e escreveu vários livros e estudos bíblicos. Atualmente, ela atua como Diretora de Iniciativas Femininas da The Gospel Coalition e é co-apresentadora do podcast The Deep Dish.
Nós nos maravilhamos com histórias de sacrifício: um soldado que se lança sobre uma granada para salvar seu pelotão, ou uma mulher que corre na frente de um carro para salvar uma criança prestes a ser atingida. O sacrifício, especialmente o autossacrifício, é algo impressionante. O próprio Jesus disse a seus discípulos: “Ninguém tem maior amor do que este: de dar alguém a própria vida em favor dos seus amigos” (Jo 15.13). E, no versículo seguinte, ele afirmou: “Vós sois meus amigos.” Não existe amor maior do que aquele que Jesus tem por nós. Ele prova isso entregando a sua própria vida.
No Evangelho de João, entre as primeiras proclamações públicas registra-se esta, de João Batista: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo!” (1.29). Esse é um daqueles versículos que podemos ler com uma familiaridade anestesiante, tão acostumadas que mal paramos para pensar. Mas essa cena no Evangelho de João mostra um homem aparentemente estranho dizendo palavras aparentemente estranhas, e isso deveria nos fazer parar e perguntar o que está sendo dito. Por que João Batista apontaria para Jesus e o chamaria de Cordeiro de Deus? João estava conectando Jesus a dois conceitos do Antigo Testamento com os quais seus ouvintes judeus estariam familiarizados: o cordeiro da Páscoa e o cordeiro sacrificial.
No Capítulo 5, olhamos brevemente para Êxodo 12, que registra a décima e última praga. Na noite anterior à libertação dos israelitas do cativeiro, Deus lhes disse, por meio de Moisés, que estava prestes a enviar uma praga que traria a morte de todos os primogênitos. Contudo, Deus faria uma provisão para garantir a sobrevivência dos primogênitos deles. Cada família israelita deveria tomar um cordeiro perfeito, sacrificá-lo e colocar o sangue do animal no batente da porta de sua casa. Naquela noite, quando o Senhor visse o sangue, passaria por cima daquela casa, e o primogênito viveria. Este é o evento que a Páscoa celebra, e, nele, o padrão da redenção foi estabelecido — a morte e o sangue de um cordeiro perfeito trariam salvação.
Na noite anterior à crucificação de Jesus, a Páscoa judaica foi celebrada. No Evangelho de Lucas, lemos:
Chegada a hora, pôs-se Jesus à mesa, e com ele os apóstolos. E disse-lhes: Tenho desejado ansiosamente comer convosco esta Páscoa, antes do meu sofrimento. Pois vos digo que nunca mais a comerei, até que ela se cumpra no reino de Deus. E, tomando um cálice, havendo dado graças, disse: Recebei e reparti entre vós; pois vos digo que, de agora em diante, não mais beberei do fruto da videira, até que venha o reino de Deus. E, tomando um pão, tendo dado graças, o partiu e lhes deu, dizendo: Isto é o meu corpo oferecido por vós; fazei isto em memória de mim. Semelhantemente, depois de cear, tomou o cálice, dizendo: Este é o cálice da nova aliança no meu sangue derramado em favor de vós. (Lc 22.14-20)
Jesus estava mostrando a seus discípulos que havia sido enviado para ser o cordeiro pascal, aquele sem defeito que seria morto para que eles pudessem viver. O seu sangue os salvaria.
Mas Jesus também era o cordeiro sacrificial. Depois que os israelitas atravessaram o mar Vermelho e encontraram-se com Deus ao pé do monte Sinai (Êx 1–18), Deus estabeleceu a sua presença no meio deles por meio da sua lei e do seu tabernáculo (Êx 19–40). Lembre-se de que o livro de Êxodo termina com a glória do Senhor enchendo o tabernáculo. Conforme diz o Dr. Jay Sklar:
Se você fosse um israelita, tudo isso [redenção, libertação, a lei, o tabernáculo] levantaria algumas perguntas intensas: Como, afinal, pode o Rei santo e puro do universo habitar entre o seu povo pecador e impuro? Como ele pode viver aqui, bem no nosso meio, sem que a sua santidade nos derreta em nosso pecado e impureza? Levítico responde a essas perguntas.[1]
Duvido que Levítico esteja na lista de livros favoritos de alguém na Bíblia. Ele parece um longo e estranho compilado de longos e estranhos rituais — que têm muito pouco a ver conosco hoje. Para falar a verdade, quantas vezes você já pulou Levítico em seu plano anual de leitura bíblica? Pois bem, nunca mais!
Levítico nos lembra que nós, um povo impuro, servimos a um Deus santo. Lembra-nos de que o nosso pecado é sério e que a expiação do pecado exige sacrifício. Porque o pecado está em nós e ao nosso redor constantemente, temos a tendência de minimizar a sua gravidade. E, quando minimizamos o pecado, inevitavelmente minimizamos a expiação desse pecado. Mas o pecado é algo enorme e horrível. Ele nos torna impuros e imundos. Permeia e contamina cada fibra do nosso ser. E ele nos separa de Deus. O teólogo Cornelius Plantinga disse:
Os cristãos sempre mediram o pecado, em parte, pelo sofrimento necessário para expiá-lo. O dilaceramento e a agonia de um corpo em uma cruz, a bizarra manobra metafísica de usar a morte para derrotar a morte, a urgência do chamado aos seres humanos para que se aliem aos eventos de Cristo e à pessoa desses eventos, então façam dessa pessoa e desses eventos o centro de suas vidas — essas coisas nos dizem que o principal problema humano é desesperadamente difícil de resolver, até mesmo para Deus, e que o pecado é a mais duradoura das emergências humanas.[2]
Se havemos de ser redimidos, perdoados e restaurados, o nosso pecado precisa ser expiado. E foi necessário um sacrifício para expiar o pecado. Contudo, os sacrifícios prescritos no Antigo Testamento eram oferecidos repetidas e repetidas vezes — sacrifícios diários, semanais, mensais e anuais —, ano após ano, século após século. Desde Levítico em diante, ao longo de todo o Antigo Testamento, a pergunta era: Isso algum dia terá fim? O pecado algum dia será expiado de modo permanente e definitivo? Algum dia haveria um sacrifício suficientemente puro para ser a oferta final? O autor de Hebreus nos diz:
Ora, visto que a lei tem sombra dos bens vindouros, não a imagem real das coisas nunca jamais pode tornar perfeitos os ofertantes, com os mesmos sacrifícios que, na após ano, perpetuamente, eles oferecem. Doutra sorte, não teriam cessado de ser oferecidos, porquanto os que prestam culto, tendo sido purificados uma vez por todas, não mais teriam consciência de pecados? Entretanto, nesses sacrifícios faz-se recordação de pecados todos os anos, porque é impossível que o sangue de
touros e de bodes remova pecados. Por isso, ao entrar no mundo, diz: Sacrifício e oferta não quiseste; antes, um corpo me formaste; não te deleitaste com holocaustos e ofertas pelo pecado. Então, eu disse: Eis aqui estou (no rolo do livro está escrito a meu respeito), para fazer, ó Deus, a tua vontade. Depois de dizer, como acima Sacrifícios e ofertas não quiseste, nem holocaustos e oblações pelo pecado, nem co isto te deleitaste (coisas que se oferecem segundo a lei), então, acrescentou: Eis aqui estou para fazer, ó Deus, a tua vontade. Remove o primeiro para estabelecer segundo. Nessa vontade é que temos sido santificados, mediante a oferta do corpo de Jesus Cristo, uma vez por todas. (Hb 10.1-10)
Você percebeu as quatro últimas palavras? Uma vez por todas. Um sacrifício, o corpo de Jesus, que expia para sempre aqueles que estão sendo salvos. Jamais, em toda a história do mundo, houve um cordeiro puro o bastante, perfeito o bastante para salvar de uma vez por todas — até que o Leão da tribo de Judá assumiu carne e voluntariamente se tornou o Cordeiro de Deus.
Isso não foi uma solução fácil ou barata. Foi algo custoso além da nossa compreensão. Contudo, porque o Cordeiro de Deus voluntariamente se colocou no altar, o sacrifício dele foi aceitável e agradável ao Pai. E o resultado glorioso é que você e eu somos purificadas de toda a nossa injustiça. Permanentemente. Completamente. Finalmente.
Um dia, uniremos nossas vozes ao coro do céu e cantaremos:
Digno é o Cordeiro que foi morto de receber o poder, e riqueza, e sabedoria, e força, e honra, e glória, e louvor! Então, ouvi que toda criatura que há no céu e sobre a terra, debaixo da terra e sobre o mar, e tudo o que neles há, estava dizendo: Àquele que está sentado no trono e ao Cordeiro, seja o louvor, e a honra, e a glória, e o domínio pelos séculos dos séculos. E os quatro seres viventes respondiam: Amém! Também os anciãos prostraram-se e adoraram. (Ap 5.12-14)
Tire um tempo hoje para adorar o Cordeiro de Deus, que tirou o pecado do mundo.
Este artigo é um trecho adaptado e retirado com permissão do livro
Do jardim à glória, de Courtney Doctor, que será lançado em vreve pela Editora Fiel.

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[1]Jay Sklar, Leviticus: An Introduction and Commentary, Tyndale Old Testament Commentaries, Vol. 3 (Downers Grove: InterVarsity Press, 2014), p. 27-28.
[2] Cornelius Plantinga Jr., Not the Way It’s Supposed to Be: A Breviary of Sin (Grand Rapids, MI: Wm. B. Eerdmans, 1996), 5.

