Um blog do Ministério Fiel
A vida de Jim e Elisabeth Elliot na selva
Fé, perigos e o avanço do evangelho no Equador
“Ensina-me a nunca deixar a alegria do que foi empalidecer a alegria do que é.”
Após o nascimento de Valerie, os meses passaram rápido, embora os dias parecessem lentos. Valerie era uma bebê raio de sol, e seu pai se deleitava em cada fase de seu desenvolvimento. Com o passar das semanas, Jim passou a afirmar que ela se parecia com o [então presidente] Dwight Eisenhower, com seu sorriso largo e a cabeça quase careca.
De sua parte, Betty escreveu: “Como sou grata ao Senhor por me dar um marido e uma bebê tão queridos. Quanto significado a vida agora tem — viver para eles, entregar a mim mesma por eles, sentir que sou necessária para eles. De todas as pessoas irremediavelmente egoístas, eu teria sido a pior, se tivesse permanecido solteira”.
Ainda assim, como em qualquer nova estação da vida, havia novos desafios. Os dias de Jim estavam absolutamente cheios enquanto ele continuava a trabalhar com a escola e a igreja de Shandia, desenvolvendo liderança indígena em ambas. Ao mesmo tempo, ele estava montando um sistema de água para a casa dos Elliot, derrubando o antigo depósito de lenha e viajando com frequência para liderar conferências de doutrina para índios em outros locais.
Todas as vezes que ele partia, Betty sentia um pouco de tristeza pós-parto, mas, normalmente, culpava a si mesma. “Ultimamente, tenho sentido que Jim não deseja compartilhar as coisas comigo. Deve ser porque eu não lhe tenho mostrado aquele amor que não pede nada em troca. Ó Senhor, dá-me um amor mais puro por ele.”
No final de março, os Elliots souberam de um ataque waorani não muito longe da base missionária em Arajuno.
Em abril, Jim se alegrou por Deus estar dando frutos no ministério. “Eu nunca vi tantos índios abertamente receptivos à Palavra”, escreveu a seus pais. “Na conferência da semana passada em Dos Rios, havia mais de vinte; em Pano, quase o mesmo número; e aqui em Shandia, cerca de uma dúzia. Agora, ao trabalho de prepará-los para a vida em Cristo.”[1]
Durante esse tempo, Betty e Jim tinham um casal, Eugenia e Guayaquil, lhes ajudando nos afazeres domésticos. Ela tinha talvez dezessete anos e ele, cerca de doze. Tentando não se questionar muito sobre aquele arranjo conjugal, Betty estava grata pela ajuda. O menino ainda estava na escola, mas podia cortar lenha, capinar mato e sair para resolver pequenas pendências. Enquanto isso, Eugenia podia ajudar pela casa cozinhando e limpando, tudo por cerca de cinco dólares por mês.
Eugenia era tão diferente de Betty Elliot quanto duas personalidades podiam ser. Seus hábitos culturais também eram diferentes. Certo dia, um índio trouxe a Eugenia algumas larvas pálidas e gordas, com cerca de cinco centímetros de comprimento e da espessura de um polegar. Embora Betty já as tivesse comido fritas, era árduo ver sua doméstica chupar entusiasticamente as entranhas delas, cruas, e quebrar entre os dentes a sua cabeça dura e com mandíbula. Já Eugenia quase vomitou quando Betty lhe deu um pouco de sopa de legumes e achou repulsivo o gosto de fudge inglês. Bem, Betty concluiu, aquele era apenas mais um vívido lembrete de que não se podia assumir que todos pensavam e se sentiam como os norte-americanos.
Em maio, um dia depois de Betty ter realizado sua habitual reunião de oração de mulheres, frequentada por cerca de vinte quíchuas, uma das jovens veio até ela, chorando. Catalina, de cerca de quinze anos, disse a Betty que seus pais estavam furiosos por ela estar indo às reuniões cristãs. Como punição, eles iriam forçá-la a se casar com um pequeno homem velho — e muito feio — que tinha uma doença que havia tornado sua pele azul. Ela precisava de um lugar seguro para ficar.
Sentindo que nenhuma mulher deveria ser forçada a se casar com um velho homem azul, Betty se solidarizou com Catalina. Ela sentiu que, se os pais da moça estavam determinados a puni-la por causa de seu interesse na fé, então Betty deveria lhe dar asilo, pelo menos até que sua família aparecesse para resgatá-la. Então, ela e Jim poderiam compartilhar o evangelho com eles.
Uma semana depois, os pais ainda não haviam aparecido. Betty tentou persuadir Catalina a se casar com um dos crentes locais em Shandia, um bom jovem viúvo de cerca de vinte e dois anos que não era azul e estava procurando uma esposa. Mas Catalina e os outros índios não aceitaram. “É ‘sasi’ [tabu] para uma virgem se casar com um viúvo”, disseram a Betty.[2]
Betty nunca viu o velho homem azul, nem foi capaz de resolver o dilema da moça. Mas ela levou Catalina consigo quando desceu o rio com Jim, Valerie e Eugenia para tratar um caso de picada de cobra a pouco mais de uma hora de distância.
Eugenia carregava Valerie na trilha estreita, logo atrás de Betty. De repente, ela gritou em um tom que Betty nunca tinha ouvido antes. Betty gelou. Uma cobra pequena e mortal estava pendurada no pé descalço de Eugenia, suas presas afundadas na carne dela.
Jim voltou correndo, desalojou a cobra, puxou seu canivete, agarrou o pé enlameado de Eugenia, cortou a área mordida e sugou o veneno. Eles a arrastaram para o rio, encharcando o pé e apertando a perna para manter o sangue fluindo. Catalina olhava para o chão e segurava Valerie bem alto em seus braços. Eugenia estava histérica. “Deixem-me em paz!”, gritava. “Deixem-me morrer bem aqui!”
Jim ainda precisava continuar sua urgente missão de cuidar da vítima de picada de cobra no final da trilha; então, Betty fez um torniquete e de alguma forma conseguiu levar Eugenia para casa. Catalina carregava Val.
Quando eles entraram na casa, tropeçando, o marido de Eugenia — o menino de doze anos — deu uma olhada e começou a soluçar. “Você vai morrer!”, gritou.
Aquilo não era de muita ajuda.
Betty lutava com Eugenia, que resistia a Betty e a arranhava, tirando sangue com as unhas. De algum modo, Betty lhe deu uma injeção de soro antiofídico e administrou um comprimido de codeína para acalmá-la.
Um ou dois dias depois, Eugenia ainda não conseguia andar, mas iria sobreviver. Um milagre. Betty pensava em como ela não estava a mais do que três passos na frente de Eugenia na trilha frondosa, com Jim na frente de Betty. Eles devem ter caminhado direto por cima da cobra.
“Jim sente que temos boas razões para interpretar muito literalmente as palavras do Senhor de que pisaremos serpentes e escorpiões sem que nos causem dano. Deus certamente tem cuidado de nós, e não há nada a fazer senão confiar que ele continuará a fazê-lo.”[3]
Certa vez, Jim estava fora de casa, com alguns índios, perto de uma piscina fluvial. Um garotinho estava na água, mergulhando alegremente. De repente, ele gritou: “O que está agarrando meu pé?”. Todos se viraram para ver, enquanto ele desaparecia sob a água lamacenta. Os adultos mergulharam no rio. Duas horas depois, os índios encontraram seu corpo. Não havia nenhuma marca nele. Aparentemente, uma jiboia se entrelaçou em torno de seu pé, puxou-o para baixo, achou-o grande demais para engolir, e então o soltou.
Na selva, não havia ilusões sobre a brevidade da vida.[4]
Numa tarde, Betty acabara de se acomodar para desfrutar a correspondência da família quando uma índia chegou para lhe dizer que sua cunhada estava “morrendo”. Sabendo que aquilo poderia significar qualquer coisa, desde uma unha encravada até malária cerebral, Betty e a mulher correram para a selva — por debaixo de cipós, por cima de troncos, ao redor de bambus e através de riachos — o mais rápido que puderam. Chegaram suando e encontraram a casa cheia de crianças uivando, parentes chorando e idosas frenéticas reunidas em torno de uma jovem no meio de um parto pélvico. A cabeça ainda estava presa. Uma vovó estava sacudindo o bebê com tudo o que podia; ao mesmo tempo, tinham amarrado um cordão bem apertado na cintura da mãe para “impedir que o bebê saísse pela boca dela”.
Betty tirou todos da sala e fez a mulher se deitar. Colocou uma luva de borracha e inseriu a mão no canal do parto. Ela encontrou a boca do bebê e puxou o queixo para baixo, em direção ao peito, enquanto aplicava pressão externa com a mão esquerda, como havia sido instruída em uma aula de enfermagem obstetrícia. Ela se esforçou o máximo que pôde por uma hora, mas, como a escuridão estava caindo, tinha de voltar para casa para Valerie e Eugenia. Ela disse aos homens que trouxessem a mulher para sua casa.
Betty correu para casa. Os homens chegaram com a mulher moribunda. Betty deu à mãe uma injeção de maleato de ergometrina (um medicamento que causa contrações uterinas). O feto morto não se moveu. Talvez houvesse gêmeos, pensou Betty. Outra dose finalmente provocou algumas fracas contrações, e Betty acabou conseguindo extrair a cabeça… a qual mostrava que o único bebê era hidrocéfalo, com uma cabeça tão grande quanto a de uma criança de dez anos. Incrivelmente, a mãe sobreviveu.[5]
À medida que Valerie crescia, Jim ficava ansioso para ter outro bebê o quanto antes. Betty inicialmente pensara, após o parto, que nunca mais passaria por aquilo outra vez. Mas agora ela estava animada por outro; seria ótimo para Valerie ter alguém com quem brincar na selva. “Eu confio que o Senhor tem outros filhos para nós”, escreveu Betty aos pais. “Estamos ficando velhos, vocês sabem. Em breve farei 29 anos. Que horror!”[6]
Pete Fleming e sua esposa, Olive, ainda viviam na antiga cabana dos recém-casados Elliots em Puyupungu, trabalhando com o crescente corpo de crentes ali. Olive vinha passando uma temporada difícil desde sua chegada ao Equador.
Além dos ajustes normais da vida de casada, ela teve que aprender espanhol, depois quíchua. Teve que se adaptar a cobras venenosas, insetos enormes e falta de privacidade. Teve que desenvolver engenhosa capacidade de improvisação para viver a vida na selva. Além de tudo o mais, ela teve um aborto espontâneo em seu primeiro Natal no campo missionário, e então mais um durante o verão de 1955. Mas ela e Pete estavam animados com os desenvolvimentos espirituais em Puyupungu. “O Senhor escancarou as portas aqui”, escreveu Pete à sua agência missionária. Ele havia pregado na igreja para “uma casa cheia, incluindo todos os adultos da aldeia, exceto a esposa do líder, que estava doente”. Ele falara cuidadosamente sobre arrependimento e fé, não querendo que ninguém afirmasse uma crença em Jesus sem realmente calcular o custo de segui-lo.
Doze pessoas ficaram após o culto para conversar mais. Pete encorajou qualquer um que não estivesse realmente pronto para andar no caminho estreito que fosse embora. Ninguém o fez. Eles oraram em voz alta. “Um pediu perdão por um coração irado, um por uma vida corrupta, um por embriaguez, um por maus pensamentos. Todos pareciam absolutamente sinceros; o grupo incluía a mulher mais velha da comunidade, nossa lavadeira, o pior bêbado da aldeia, as duas filhas e os dois filhos do líder e várias crianças de 12 anos.” Pete sentiu uma percepção incomum do Espírito Santo; havia vários outros que estavam, literal e figurativamente, à porta do encontro, perto de chegarem a Jesus.
Este artigo é um trecho adaptado e retirado com permissão do livro Moldada por Deus, de Ellen Vaughn, o qual é o volume 1 do box Elisabeth Elliot: uma biografia autorizada, Editora Fiel.
[1] Elisabeth Elliot, Shadow of the Almighty (New York: Harper, 1958), p. 225.
[2] Carta de EE para “Queridíssima Família”, 25 de maio de 1955.
[3] Ibid.
[4] Esses eventos de 1955 são narrados, não necessariamente em ordem cronológica, com o objetivo de dar uma ideia da vida e do ministério dos Elliots na selva.
[5] EE para “Querida Família”, 28 de outubro de 1955.
[6] EE para “Queridíssima Família”, 5 de junho de 1955.


