Contextualizar: Diversas Opiniões

O QUE É LEGAL?
Michael McKinley

Mostre-me um homem adulto com barbicha, e eu te mostrarei um jogador de basquete. Mostre-me um homem adulto de barbicha usando sandálias e eu te mostrarei um pastor de jovens.

Quando eu era criança, lembro que o pastor de jovens da minha igreja era totalmente diferente de qualquer outro pastor que eu já tinha visto. Ele citava bandas de rock e ia para a igreja de jeans. Ele era legal de uma forma que os outros adultos no meu convívio não eram. Eu tinha orgulho de chamar meus amigos para a igreja e ver seus estereótipos negativos dos cristãos irem por água abaixo. O grupo de jovens crescia e as crianças ‘de fora’ eram alcançadas. O diferencial do nosso grupo em relação aos outros era que nosso pastor era legal.

Conforme os jovens (e os pastores deles) dos anos 90 se tornaram a igreja e seus pastores nos anos 2000, esse fenômeno aparentemente só cresceu. Agora é uma idéia sem discussão em muitos lugares: a melhor forma de alcançar as pessoas é ser como elas. Para atingir nossa cultura, devemos incorporar o que a cultura define como aceitável e de valor. Devemos ser o mais “legal” possível sem abrir mão do evangelho. Dessa forma, as pessoas vão olhar para nós e não se sentirão rejeitadas. Talvez até queiram ser como nós.

Isso se mostra tanto na vida dos nossos pastores (você rapazes super legais, estou falando sobre vocês e seus óculos de emo) como no louvor da congregação, de onde nós tentamos retirar qualquer coisa que pareça estranho para o visitante que não é da igreja.

De certa forma, eu acho que é bom estarmos relacionados com a cultura ao nosso redor. Mas existem diversas formas que um compromisso em ser legal pode conflitar com o chamado pastoral. Sendo o cara legal do grupo do 9Marks (o que é quase como ser o cara que tem namorada em uma convenção de Jornada nas Estrelas), aqui vão algumas idéias:

1. Estar em contato com a cultura é uma espada de dois gumes.

De alguma forma, todos nós carregamos conosco um conjunto único de interesses, talentos, características e pontos fortes. Esse conjunto pode servir para a proclamação do evangelho, ou atrapalhá-la. Por exemplo, ontem o rapaz da assistência técnica da copiadora passou pela igreja onde sou pastor. Ele é um jovem rapaz que gosta de luta livre. Criamos uma afinidade por conta disso (um dos rapazes de nossa igreja também gosta de artes marciais), e ele se surpreendeu com o fato de que o pastor era tatuado. Compartilhei sobre Cristo com ele, e ele me pediu uma Bíblia. Ponto para a imersão cultural.

Mas há outras formas em que a minha aparência por atrapalhar o evangelismo. Tenho conversado sobre Cristo com um muçulmano que faz sauna no mesmo horário que eu na academia, uma ou duas vezes por semana. Temos certo nível de amizade e quase sempre conversamos sobre questões espirituais. Não tenho a menor dúvida que o fato de haver uma grande raposa tatuada no meu bíceps não o torna mais interessado na minha fé. Um ponto para quem não tem tatuagens. É por causa disso que uso camisa de manga comprida nas manhãs de Domingo. Em um momento, minhas tatuagens me ajudam; em outro, pode dificultar as coisas.

2. Devemos sempre estar alertas contra o orgulho.

Quanto do desejo de um pastor em ser visto como legal ou descolado é motivado por vaidade ou orgulho? Conhecendo a profundidade de nossa depravação, auto-engano e orgulho, devemos sempre nos examinar. O motivo que me leva a me vestir de certa forma ou ouvir determinada música é um bom motivo? Ou alguma parte de mim quer, no mínimo, evitar comparações com Ned Flanders? Devemos estar conscientes que nossa busca pelo legal não deve alimentar a vaidade e o orgulho com os quais devemos lutar diariamente.

De fato, eu temo (e aqui eu falo de algo que vejo em meu próprio coração) que algumas vezes nós somos, nem que seja um pouco, motivados a buscar as pessoas pelo orgulho. Quanto de nosso desejo de sermos legais é um desejo de alcançar pessoas não para a glória do evangelho, mas por nossa própria glorificação? Uma pergunta íntima para qualquer pastor: se o Senhor te chamasse para pastorear 60 crentes chatos até que eles estivessem a salvo, sem qualquer avivamento espetacular ou explosão ministerial, você levaria a sério esse chamado? Ou seria um aparente desperdício de seus dons e de sua vida? Se sim, você está sendo motivado pelo orgulho.

3. Muito do ministério pastoral é extremamente fora de moda.

Nem pense em se tornar um pastor se você quer soar razoável para a maioria das pessoas ou se você quer influenciar um grande grupo de pessoas legais e seus ideais. A proclamação da Cruz é loucura para uma grande parte da comunidade artística hipster. Devemos amar mais o Salvador do que nosso respeito pelos outros.

Além disso, grande parte da atitude que envolve ser muito legal não tem muito a ver com o trabalho de um pastor. Algumas vezes, você deverá ser embaraçosamente empolgado. Você deverá amar as pessoas chatas e extremamente estranhas com um amor real e que não busca rir delas. Você deve chorar com as pessoas quando elas sofrem tragédias inexplicáveis. Muito do que é ser pastor é profundamente “não legal”.

4. Não devemos desprezar nossos irmãos e irmãs de forma alguma.

Há um grande perigo de nos tornarmos tão orgulhosos de nossa liberdade em Cristo para usar roupas pretas que nós começamos a tratar com pouco caso os cristãos estilo Ned Flanders que amam o Senhor e o serviram fielmente por anos. De fato, talvez o Senhor se agrade mais do humilde (mas não tão sofisticado) caminhar deles do que do seu. O fato é, o amor pelos outros cristãos é uma marca do verdadeiro crente (1 João 2.10). Essa marca deve ser ainda mais profunda no pastor. Temos mais em comum com um crente do Myanmar e outro em Duluth (mesmo que você não saiba onde ficam esses lugares, ou até mesmo que eles existam) do que com as pessoas que tentamos alcançar para Cristo.

A grande questão é: nós não podemos escolher quem estará em nosso rebanho, e nem deveríamos tentar. A igreja deveria buscar alcançar “o cara”, diminuindo e desprezando o rapaz comum e sem graça que está lá todo Domingo? Se lermos Efésios com atenção, veremos que a igreja consiste de todo tipo de pessoas: legais e chatos, machos e sensíveis, punks e emos. Sinceramente, baseado na minha experiência, o cara sensível que não se esforça para ser muito legal é provavelmente 10 vezes mais parecido com o perfil bíblico de como um homem deve ser, mesmo que ela não ande de moto e assista esportes violentos na TV. Pastoreie o rebanho, agradeça a Deus pela diversidade do corpo de Cristo e ame as pessoas que não são como você.

5. Com algumas poucas exceções, cristãos que tentam ser legais são péssimos nisso.

Quando estava no ensino médio, um rapaz bem intencionado tentou realizar a performance do que ficou conhecido no Colégio Radnor Junior como o infame “rap de Jesus”. Eram os primeiros dias do sucesso do hip-hop, e o gênero nem tinha se formado totalmente ainda. Bem, esse homem, um rapaz branco e magro, atrasou em uns dez anos o desenvolvimento do hip-hop em cinco excruciantes minutos. Mais tarde descobri que o que ele cantou não havia sido escrito por ele mesmo (graças aos céus), mas mais tarde acabou sendo lançado em disco por outro rapaz.

O ponto é: nem todos os cristãos são bons nisso. Alguns conseguem, mas provavelmente você não consiga. Sério, pergunte a sua esposa. Ela te dirá a verdade. Não tente ser algo que você não é apenas para impressionar os não crentes. É uma má aplicação da teologia e não vai enganar ninguém. É esse tipo de pensamento que produziu a maior parte da música gospel que ouvimos por aí. Por favor, pare. Não, é sério. Agora. Eu insisto.

6. Ser como a cultura pode tornar mais difícil enxergar o evangelho.

Quanto mais entendemos o mundo (e a sua definição do que é atraente e o que é legal), menos devemos nos sentir atraídos por ele. Em uma sociedade que está cada vez mais falida, moralmente e espiritualmente, são as nossas diferenças com a cultura que servem para espalharmos o evangelho. David Wells fala melhor sobre isso do que eu poderia, eu seu livro God in the Wasteland:

No ponto em que chegamos, os evangélicos deveriam estar ansiosos por um avivamento genuíno na igreja, desejando que ela seja novamente um lugar de seriedade onde uma ávida aversão ao padrão desse mundo é cultivada, porque se entende os padrões do mundo, e onde a adoração é separada de tudo que é extravagante, onde a Palavra de Deus é ouvida com atenção, e onde os desolados e desamparados podem achar refúgio.

Oremos para que nossas igrejas recuperem a qualidade de ser avidamente adversa ao padrão desse mundo, mesmo que isso não seja legal.

A conclusão disso tudo é: seja que Deus te fez para ser. Se você é um pouco hipster, que seja. Seja um hipster para a glória de Deus. Se você está indo em outra direção, que bom. Mas Cristo deve ser o centro de tudo aquilo que você busca em seu chamado pastoral. Isso significa sacrificar nosso orgulho e irmos atrás daqueles que não são como nós. Isso significa evangelizar além dos limites de nossos gostos e preferências. E no fim das contas, isso pode nos levar a não sermos legais.

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10 Comentários
  1. Izabel Diz

    Muuuito pertinente o texto, o que falta nas maioria das pessoas é entender o que significa equilibrio.
    Braços

  2. Pedrinho Medeiros Diz

    Muito esclarecedor a questão da cultura. De fato, temos que viver o evangelho na cultura que vivemos, e isto não exige esforços, pelo menos para mim não, porque sou jovem e vivo como um jovem normal dos nossos dias, falo como eles, ouço musicas como as deles e etc…
    Porém, entra uma questão, o uso de teatro, dança e etc, na Igreja, encaixa-se nesse principio da contextualização? ou já passou dos limites e tornou-se mera distração e entretenimento?

    Abraços!

  3. (-V-) Diz

    Pedro,

    Este assunto de elementos do culto é meio complexo. Existem basicamente dois pontos de vista, que vem desde a Reforma Protestante:

    1) Princípio Regulador do Culto (PRC): só pode fazer o que a Bíblia prescreve
    2) Princípio Normativo do Culto (PNC): pode fazer tudo o que a Bíblia não proíbe

    Portanto, segundo o PRC não poderia ter teatro e dança porque a Bíblia não prescreve estes elementos para culto neotestamentário. Já para o PNC poderia.

    Sugiro que você procure na internet sobre o assunto. No monergismo.net.br tem um vasto material sobre o PRC.

    Em Cristo,
    Vini

  4. Ander¢layton Diz

    Vini,
    Graça e Paz.

    Compreendi o que quiseram dizer com isso de equilíbrio, mas pondero sobre ser mesmo necessário.
    Acho estranho pois se olhamos para a igreja emergente por exemplo, vemos essa idéia de contextualização muito forte, isto de parecer com o mundo de uma certa forma, de atrair a cultura para a igreja, seria como concordar com a idéia dos bola de neve por exemplo, acho que alguns dos peritos nisso aqui no brasil (http://www.youtube.com/watch?v=qD5XP6LlJi8 http://www.youtube.com/watch?v=3FAOQCF0T3I http://www.youtube.com/watch?v=e1tYy2A8wzs). Acho que podemos conhecer sim nossa cultura, e todos conhecemos ela por vivermos nela, mas não precisamos adaptar o evangelho a ela. As pessoas precisam abandonar a cultura em que vivem e se conformarem ao evangelho que é livre de cultura. E não o contrário.
    Homens como o Washer, Piper e todos esses homens que conhecemos usam isso de contextualização? Principalmente o Washer que que trabalha em cima de evangelismo?
    Lembram da primeira das dez acusações dele?
    E quando Piper fala sobre o perigo das filosofias? Entendamos que a cultura humana é totalmente fundamenta em filosofias e sociologias.
    Eu sei que por mais que eu viva em uma determinada cultura, ela não deve ter domínio ou lugar de destaque em minha vida. Sou estrangeiro a ela.

    Agora, entendo que talvez isso de contextualizar seja bom se bem aplicado, mas essa frase do primeiro post me entristeceu muito:

    "Essa má compreensão da contextualização tem levado essas pessoas a argumentarem que reflexão cultural e contextualização são, na melhor das hipóteses, distrações, e na pior, pecaminosas. Eles nos admoestam a abandonar essas coisas e focar simplesmente na Bíblia. Apesar disso soar virtuoso, acaba sendo tolo por duas razões. Primeira, como já vimos, a própria Bíblia nos exorta a entender nossos tempos de modo que possamos alcançar nosso mundo mutável com a verdade eterna de Deus. """Não contextualizar, portanto, é um pecado"""."

    Se reconhecem o perigo de uma má contextualização, que é praticamente a unica que acaba acontecendo, como então obrigar as pessoas a fazerem isso condenando-as em pecado por não fazerem? Diga-se que se é um pecado, é condenável! Enquanto que na verdade a má contextualização é que é verdadeiramente.

    Acho que a Verdade Eterna de Deus sempre vai alcançar esse mundo mutável sem ser ela mutável também. Sendo ela apenas como ela é.

    Deus os abençoe.

  5. (-V-) Diz

    Anderclayton,

    Bom comentário (e vídeos horríveis rsrs).

    Contextualização está em todo lugar. Como disse Mark Driscoll, a questão é somente a que época.

    Por exemplo, o culto antigamente nas igrejas católicas eram feitas em Latim. E isso é pecado, porque você está impedindo que as pessoas entendam a Palavra de Deus. Falar a língua local de um povo de forma que eles entendam é contextualizar. É deste tipo de contextualização que estamos falando.

    A contextualização deve servir o Evangelho e não atrapalhar sua divulgação. Por exemplo, em que universo cantar "cada um no seu quadrado" tem algum sentindo na pregação da Palavra de Deus? (Se é que ela estava sendo pregada). Isto atrapalha e difama o Evangelho. Isso não contextualizar, é comprometer.

    Agora, citar uma música secular quando você está evangelizando para que a pessoa entenda o Evangelho é fazer a contextualização servir o Evangelho, como Paulo fez no Areópago (gregos para os gregos, judeu para os judeus).

    O Piper usa certa forma de contextualização ao
    1) Ter telões em igrejas filhas que mostram ao vivo a pregação dele na igreja mãe
    2) Pregar uma mensagem bíblica e atrativa aos jovens como Não Desperdice Sua Vida

    O site do DesiringGod e da HeartCry são formas de contextualização. Pregações legendadas no YouTube também.

    Não sei se fui claro. O limiar realmente é estreito. E é muito fácil cair em extremos. E cair em sincretismo é algo terrível.

    Em Cristo,
    Vini

  6. Pedrinho Medeiros Diz

    Tenho refletido muito para poder encontrar o equilibrio nestas coisas.
    Sempre me levantei contra a utilização de meios para atrair pessoas, para depois pregar o evangelho, como faz a jocum com teatros, e o bola de neve, que foi citado pelo irmão. Mas e quando utilizamos trabalhos sociais, como futebol, dança de rua, para se inserir na cultura das pessoas, buscando ter relacionamentos, e então, a partir disto pregar o evangelho? Seria o mesmo que utilizar um meio para atrair as pessoas, ou seria contextualizar? Bom, creio que se inserir na cultura de alguma forma, é algo que todos missionários tem feito, pois de que forma, ao chegar em um país, eles vão conseguir abertura para pregar? Sendo que não conhecem ninguém? E por isso, contextualizar é necessário. George Muller fez isto com os orfanatos, outros fazem isto com o esporte, outros com a medicina, mas o foco não deve ser estas coisas, mas a propagação do Evangelho (que não muda nunca), e perguntar para nós mesmos: todas estas coisas tem glorificado a Deus? porque se tiver, amém; se não…

    Abraços

  7. Ander¢layton Diz

    Vini,

    Acho que entendi melhor que tipo de contextualização estão se referindo, na verdade a imagem da errônea contextualização é algo que fica muito forte na mente uma vez que a conhecemos, como citei o caso da igreja emergente. Quanto ao Discroll, confesso que não o entendo muito bem as vezes.
    Mas o que vocês estão se referindo, seria o caso da tradução da Bíblia para um determinado idioma, como graças a Deus aconteceu conosco tendo a Bíblia em português, mas a imagem de contextualização que tenho é aquela das novas traduções mais modernas como em destaque a bíblia viva. Onde praticamente tudo é mudado, é como contar uma história considerando apenas o sentido dela, usando de próprias palavras, com uma linguagem nada formal. Vi erros terríveis nessa.

    Vi os exemplos que você citou do Piper, mas nesse caso é mesmo uma contextualização da forma de pregação do evangelho, e não numa do próprio evangelho à cultura das pessoas. Um exemplo disso seria a tal teologia da prosperidade.
    Mas nesses exemplos do Piper, vemos uma contextualização voltada unica e exclusivamente a facilitar a propagação e o alcance do evangelho, e não numa forma de torna-lo agradável, atrativo, o que considero o terrível erro.

    Deus nos agracie.

  8. (-V-) Diz

    Anderclayton,

    Contextualizar o Evangelho não é mudar seu conteúdo, é torná-lo entendível e mais facilmente disponível.

    Em Cristo,
    Vini

  9. Ander¢layton Diz

    Vini,

    Sim, entendi. Só apresentei uma imagem que ele tem as vezes.

    Deus abençoe.

  10. Marcos Diz

    Vini, a paz

    Achei esse video no vimeo, muito interessante, porém meu inglês não é lá essas coisas.
    Gostaria de saber se vocês ou algum dos irmãos que acessam esse blog poderiam legendar: http://vimeo.com/25630059 – Training the Next Generation of Pastors and Other Christian Leaders

    In this video: Albert Mohler, Mark Driscoll, David Helm, Don Carson, Ligon Duncan

    Deus abençoe

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