Moby Dick – Romances seculares que recomendamos [1]

Série Romances Seculares que Recomendamos

John Piper, no artigo Cristãos podem se beneficiar de livros seculares?, afirma que “todas as nossas leituras, cristãs ou não-cristãs, visam conhecer melhor a Deus, o homem, os caminhos de Deus e os caminhos do homem, de modo que nós possamos obedecer mais plenamente ao que Deus diz e sermos mais úteis para cumprir seus propósitos e glorificar seu nome.” Nesta série “Romances seculares que recomendamos”, diversos teólogos e pastores recomendam boas literaturas que todo cristão deve considerar ler. 

Se seu objetivo é escrever o Grande Romance Americano, tenho más notícias para você. Herman Melville realizou essa façanha há mais de um século, quando escreveu Moby Dick.

A magnificência de Moby Dick está em seu incomparável simbolismo teológico que Melville espalhou abundantemente por todo o romance. Por exemplo, considere seu uso dos nomes bíblicos dos personagens, como Ahab [Acabe], Ishmael [Ismael], Elijah [Elias] e navios como Jeroboam [Jeroboão] e Rachel [Raquel].

Os estudiosos de Melville divergem acerca do significado simbólico do personagem central do romance – a grande baleia branca Moby Dick.

Muitos argumentam que ele[1] simboliza a encarnação do mal. Ahab certamente sustenta essa visão, uma vez que ele é movido por um ódio monomaníaco por essa criatura que comeu sua perna e deixou-o permanentemente avariado no corpo e na alma.

Outros estudiosos estão convencidos de que a baleia simboliza o próprio Deus. Sendo assim, a busca de Ahab por ela não é uma busca justa por Deus, mas o esforço natural inútil do homem, em seu ódio a Deus, para destruir a divindade onipresente.

Fico com essa última perspectiva.

Creio que Moby Dick contém o mais poderoso capítulo já escrito da língua inglesa: “A brancura da baleia”. Aqui encontramos insights sobre o profundo simbolismo de Melville na medida em que ele explora como a brancura é usada na história, religião e natureza. Os termos que ele usa para descrever a aparência da brancura nessas áreas incluem furtividade, espectral e horror transcendente, bem como suave, respeitável e puro. Melville escreve:

Mas ainda não resolvemos a magia dessa brancura, e nem sabemos por que tem um apelo tão poderoso na alma; e ainda mais estranha e muito mais prodigiosa – por que, como vimos, é ela simultaneamente o símbolo mais significativo das coisas espirituais, o próprio véu da Divindade Cristã; e, contudo, o agente intensificador nas coisas que mais aterrorizam a humanidade.

Será que, por sua indefinição, ela obscurece os vácuos e as imensidões impiedosas do universo, e dessa forma nos apunhala pelas costas com a idéia da aniquilação quando contemplamos as profundezas brancas da Via Láctea? Ou será que o branco, em sua essência, não é uma cor, mas a ausência visível de cor, e, ao mesmo tempo, a fusão de todas as cores; será que são essas as razões pelas quais existe um espaço em branco, repleto de significado, na ampla paisagem das neves – um ateísmo sem cor e de todas as cores do qual nos esquivamos? […] E de todas essas coisas a baleia albina é o símbolo. Surpreende-te ainda a ferocidade da caçada?[2]

Se a baleia personifica tudo o que é simbolizado pela brancura – aquilo que é aterrorizante; aquilo que é puro; aquilo que é excelente; aquilo que é medonho e espectral; aquilo que é misterioso e incompreensível – não personificaria ela aqueles atributos que são encontrados nas perfeições do próprio Deus?

Quem sobrevive à busca hostil por um ser desses? Somente aqueles que experimentaram a suavidade da graça reconciliadora conseguem olhar para o poder avassalador, soberania e imutabilidade do Deus transcendente e encontrar paz, em vez de um impulso por vingança.

Leia Moby Dick, e depois leia-o de novo.

[1] Moby Dick é uma baleia macho (Nota do Tradutor).

[2] MELVILLE, Herman. Moby Dick. Cosac Naify, 2014 (edição Kindle, posição 3361). Tradução de Irene Hirsch.

Por: R. C. Sproul. © 2014 Between 2 Worlds. Original: R. C. Sproul: A Novel Every Christian Should Consider Reading

Original: Moby Dick – Romances seculares que recomendamos [1] © 2017 Ministério Fiel. Todos os direitos reservados. Website: MinisterioFiel.com.br. Tradução: Leonardo Galdino

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