Cristãos têm que continuar confessando seus pecados?

No artigo anterior, vimos que a ideia de que “se não confessarmos individualmente cada pecado antes de morrer iremos para o inferno” não é uma noção evangélica e protestante da salvação. Somos completamente perdoados e justificados no momento em que cremos. Sendo assim, um cristão tem que continuar confessando seus pecados? Como fica 1 João 1.9: “Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça”?

Veja o contexto imediato e verá que João está lidando com aqueles que afirmam “não ter pecado algum” (v. 8). Tais afirmavam para ter comunhão com Deus era preciso ser, em si mesmos, impecáveis. Porém, ninguém pode afirmar que não tem cometido pecado (o verbo traz a noção de cometer continuamente), pois isso faz de Deus mentiroso, já que ele enviou seu Filho por causa de nossos pecados (v. 7).

Logo, se o Pai enviou seu Filho para nos purificar de todo pecado, então o meio de se ter comunhão com ele não é através da justiça própria, mas através da confissão de pecados e fé em Cristo. Se confessarmos nosso pecado, Deus é fiel e justo para nos perdoar. Fiel, pois ele não mente e disse que quem cresse no Filho teria vida eterna (1Jo 5.13) e é justo pois Cristo pagou o preço de aplacar a ira de Deus (2.1-2).

Em 2.1-2, o apóstolo lida com quando um crente peca: “Se, todavia, alguém pecar, temos Advogado junto ao Pai, Jesus Cristo, o Justo e ele é a propiciação pelos nossos pecados…”  Se pecarmos, Jesus Cristo advoga em nosso favor, pois seu sangue aplacou a ira de Deus (propiciação). Mais do que apontar para a necessidade de confessarmos novamente nosso pecado para sermos salvos, João aponta para a obra de Cristo, o qual advoga em favor dos crentes.

Isso significa que não precisamos confessar os pecados que cometemos depois de crentes? Não. Davi confessa seu pecado no Salmo 32 (e outros salmos de confissão), bem como Jesus nos ensina a orarmos “perdoa-nos as nossas dívidas” (Mt 6.12).

Lutero bem disse em sua primeira tese: “Dizendo nosso Senhor e Mestre Jesus Cristo: Arrependei-vos…., certamente quer que toda a vida dos seus crentes na terra seja contínuo arrependimento.” Fé e arrependimento, então, não são somente o meio de se entrar na vida cristã, mas a experiência diária da vida cristã. Continuamente estamos nos arrependendo de obras mortas e elevando nossos olhos para o monte do Calvário, de onde nos vem a salvação.

Porém, essa confissão se dá dentro de um contexto da salvação, de um relacionamento “de Pai e filho” já existente com Deus, e não dentro de um contexto de perda de salvação.

É aqui que a doutrina da justificação somente pela fé é tão importante. O ensino protestante (luterano) diz que somos ao mesmo tempo justos e pecadores (em latim, simul justus et pecator). Ou seja, apesar de completamente justificados diante de Deus ainda somos, em nós mesmos, pecadores, e, de fato, pecamos.

Na salvação, o Pai credita (imputa) a justiça do Filho sobre nós (Rm 4) e somos considerados completamente justos (justificação). Porém, o Pai e o Filho também enviam o Espírito para que possamos crescer em justiça em nós (santificação). Em outras palavras, um cristão não confessa seu pecado para garantir sua justificação (apesar de uma vida sem confissão poder ser uma prova de falta de fé genuína), mas para crescer em santificação.

Assim, temos que ter uma postura dupla com o pecado. Primeiro, precisamos descansar completamente em Cristo, diante do fato de que na cruz todos os nossos pecados foram perdoados (passado, presentes e futuros). É isso que Paulo ensina em Colossenses 2.13-14: “E a vós outros, que estáveis mortos pelas vossas transgressões e pela incircuncisão da vossa carne, vos deu vida juntamente com ele, perdoando todos os nossos delitos; tendo cancelado o escrito de dívida, que era contra nós e que constava de ordenanças, o qual nos era prejudicial, removeu-o inteiramente, encravando-o na cruz”. Veja, Deus perdoou “todos os nossos delitos”. Ele removeu “inteiramente” toda dívida, encravando-a na cruz! Temos verdadeiramente paz com Deus (Rm 5.1).

A segunda postura é de guerra contra o pecado. Lembrando-nos de que cada martelada do cravo nas ensanguentadas mãos de Cristo foi por causa de nossos pecados, devemos buscar com empenho mortificar a carne na força do Espírito (Rm 8.13). Não estamos guerreando para sermos aceitos por Deus. Mas porque já somos aceitos completamente por Deus, através de Cristo, em gratidão ao que ele fez, guerreamos. É a batalha dos que já encontraram paz.

Concluindo, precisamos, então, compreender que jamais seremos salvos por confessarmos todos os nossos pecados, pois jamais conseguiremos confessar todos os nossos pecados, já que pecamos muito mais que podemos imaginar. Porém, quando cremos verdadeiramente em Cristo, fomos completamente justificados e perdoados por Deus, não tendo mais nenhuma condenação contra nós. E agora, perdoados, podemos tomar a nossa cruz por gratidão pela Cruz de Cristo, e segui-lo, vivendo uma vida diária de fé e arrependimento, um processo contínuo de descansar na obra já concluída de Jesus e confessar e abandonar os nossos pecados.

Por: Vinicius Musselman Pimentel. © Voltemos ao Evangelho. Original: Cristãos têm que continuar confessando seus pecados?

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