Um blog do Ministério Fiel
Jonas e a graça que não conhece fronteiras
Reflexões sobre a graça divina em Jonas
Resumo: O livro de Jonas revela o confronto entre a justiça humana e a misericórdia soberana de Deus. Ao narrar a fuga do profeta, a conversão de Nínive e a indignação de Jonas, a Escritura ensina sobre missão, graça universal e a catolicidade da Igreja. Este artigo explora o chamado divino, a responsabilidade cristã e o alcance global do Evangelho. Escrito pelo Dr. Hermisten Maia, ministro da Igreja Presbiteriana do Brasil. É formado em Teologia, Filosofia e Pedagogia. É Mestre e Doutor em Ciências da Religião. Leciona em diversos Seminários ininterruptamente desde 1980. Tem experiência na área de Teologia Sistemática, lecionando há 40 anos, e História da Reforma Protestante, atuando principalmente nos seguintes temas: João Calvino ,Teologia Reformada e Cosmovisão Reformada.
Recordemos a bem conhecida história do profeta Jonas. Além do livro que leva o seu nome, ele é mencionado apenas em 2Rs 14.25,[1] onde se alude à sua profecia acerca do restabelecimento das fronteiras de Israel no reinado de Jeroboão II. Era, portanto, contemporâneo dos profetas Oséias e Amós, e provavelmente exerceu seu ministério por volta do ano 760 a.C.
O chamado e a resistência do profeta
A missão de Jonas consistia em clamar contra a cidade de Nínive por causa de seu pecado (Jn 1.1-2; 3.1-2). Contudo, o texto mostra, com certa ironia, que o profeta se dispôs a fugir da presença do Senhor. Dirigiu-se à cidade portuária de Jope, onde pagou a sua passagem (Jn 1.3) e embarcou rumo a Társis, na Espanha.
Deus o enviara para Nínive, cerca de 1.300 km a leste; Jonas, porém, partiu para o oeste. A ordem divina o incomodava, e o profeta não queria obedecer (Jn 1.2-3,10; 4.2). Amava intensamente o seu país e não conseguia se imaginar pregando para aqueles violentos pagãos ninivitas — ainda mais se viessem a se converter.
Jonas racionalizou sua fuga de tal forma que, mesmo em meio à grande tempestade que aterrorizava os marinheiros, dormia tranquilo enquanto o navio quase naufragava — algo profundamente estranho à tripulação (Jn 1.5-6).
Nínive, capital do império assírio, fora fundada por Ninrode, bisneto de Noé (Gn 10.11-12). Era composta por guerreiros impiedosos, orgulhosos e independentes, conhecidos por sua selvageria. Segundo Jn 4.11, havia “mais de cento e vinte mil pessoas que não sabem discernir entre a mão direita e a mão esquerda”, o que sugere uma população de cerca de 600 mil habitantes.[2] Como observa Schultz: “Do ponto de vista humano, a Assíria era o último lugar onde um israelita gostaria de dirigir-se em aventura missionária.”[3]
Na realidade, Jonas era um homem crente, mas caiu na tentação de subordinar o seu chamado às suas próprias ideias e valores. Os valores de Deus, porém, não são necessariamente os nossos, por mais convictos que estejamos da sua suposta “biblicidade”.
A misericórdia de Deus e a indignação de Jonas
O contraste entre Jonas e Deus é evidente. O profeta desejava justiça imediata; Deus oferecia misericórdia. Jonas pregou esperando condenação, mas Deus concedeu conversão. Indignado, Jonas confessou: “Sabia que és Deus clemente, e misericordioso, e tardio em irar-se, e grande em benignidade” (Jn 4.2). Sua ira revela o risco de querer ser “mais justo do que Deus”, impondo critérios humanos à justiça divina.
A lição da universalidade da graça
A história de Jonas ensina que a clemência de Deus não anula sua justiça, mas a manifesta em perfeição. Como Paulo afirma: “Terei misericórdia de quem me aprouver ter misericórdia” (Rm 9.15). A graça é soberana e não se curva às fronteiras culturais ou sociais. Deus vê os povos não por sua riqueza ou poder, mas por sua necessidade da Palavra.
A Igreja e sua missão universal
No Novo Testamento, a mesma verdade se confirma. Em Corinto, cidade marcada pela imoralidade, Deus disse a Paulo: “Tenho muito povo nesta cidade” (At 18.10). A Igreja é chamada a anunciar o Evangelho a todos — judeus e gentios, pobres e ricos, samaritanos e inimigos (Mc 16.15; At 8.5,14,25). Como Paulo escreve: “Não pode haver judeu nem grego; nem escravo nem liberto; nem homem nem mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus” (Gl 3.28).
Ninguém está aquém da salvação — como se não precisasse dela — nem além da salvação — como se não pudesse recebê-la. A graça pertence a Deus. O nosso compromisso com o Senhor nos impele a anunciar o Evangelho a todos.
A catolicidade da Igreja
A Igreja é católica porque a oferta da salvação é para todos em todas as épocas e em todos os lugares. Não se trata de possuir crentes em cada região, mas de proclamar que a graça salvadora é oferecida universalmente. O amor de Deus vence corações de pedra (Ez 36.26-27), transformando-os em corações de carne. Como Kuiper (1886-1966) observa: “Embora não exista nada de que o homem necessite mais do que o Evangelho, não há nada que ele queira menos.”[4]
Vocação e responsabilidade
A vocação divina não é um atestado de infalibilidade humana. Deus usa instrumentos frágeis para manifestar sua misericórdia universal. A Igreja, constituída por pecadores eleitos e redimidos, tem a responsabilidade intransferível de proclamar o Evangelho a toda criatura, pois “o Evangelho é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê” (Rm 1.16).
Aplicações práticas
- Reconhecer nossa própria resistência: Assim como Jonas, muitas vezes relutamos em obedecer ao chamado de Deus, preferindo nossos critérios de justiça. É preciso humildade para submeter nossa vontade à vontade divina.
- Evitar exclusivismo: A graça não conhece fronteiras. Devemos combater preconceitos raciais, sociais ou culturais que nos impedem de ver o outro como alvo da misericórdia de Deus.
- Valorizar a missão: Evangelizar não é tarefa opcional, mas responsabilidade essencial da Igreja. Cada crente é chamado a ser testemunha da graça que alcança todos.
- Cultivar compaixão: O coração pastoral deve refletir o coração de Deus, que se compadece dos perdidos. O trabalho missionário é expressão prática dessa compaixão.
- Esperar em Deus: Mesmo quando não entendemos seus caminhos, devemos confiar que sua justiça e misericórdia são perfeitas.
[1]“Restabeleceu ele os limites de Israel, desde a entrada de Hamate até ao mar da Planície, segundo a palavra do SENHOR, Deus de Israel, a qual falara por intermédio de seu servo Jonas, filho de Amitai, o profeta, o qual era de Gate-Hefer” (2Rs 14.25).
[2] Veja-se boa discussão a respeito em C.F. Keil; F. Delitzsch, Commentary on the Old Testament, Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, [s.d.], v. X/1, p. 416; Samuel J. Schultz, História de Israel, São Paulo: Vida Nova, 1977, p. 364.
[3] Samuel J. Schultz, História de Israel, São Paulo: Vida Nova, 1977, p. 363.
[4] R.B. Kuiper, Evangelização Teocêntrica, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1976, p. 101.

