A História do Inferno: de 200 a 400 d.C.

O que os cristãos creram a respeito do inferno ao longo da história?

Após uma introdução das três principais visões sobre o inferno, apresentamos aqui grandes nomes da história e o que defendiam sobre o assunto. (acesse a introdução para ver o índice)

Orígenes (c. 185-254)

Orígenes talvez tenha sido o escritor cristão primitivo mais controvertido na área da escatologia (além de outras doutrinas). Profundamente moldado pelas tradições do médio platonismo, corrente filosófica presente na Alexandria do segundo século, bem como pelas obras de Clemente, para Orígenes o drama da história da salvação foi uma iniciativa divina para levar as “mentes” criadas de volta à união intelectual extática com Deus na qual tinham sido originariamente criadas. Todo o mundo físico, na teologia de Orígenes, era uma disciplina purgativa criada por Deus a fim de dar às mentes decaídas o estímulo necessário para abandonarem seu estado de apatia. O inferno era simplesmente a forma extrema dessa disciplina purgante, e os textos das Escrituras que tratam da punição eterna são enganos benevolentes de Deus com o propósito de nos chocar e assim nos conduzir ao arrependimento. Embora Satanás e os demônios estejam em desvantagem pelo fato de não terem um corpo, Orígenes manifestou a esperança de que eles retornariam a Deus na apocatástase, a restauração final de toda a criação. A apocatástase foi condenada como herética no Segundo Concílio de Constantinopla, em 553, três séculos após a morte de Orígenes.

Atanásio (c. 296-373)

Atanásio, patriarca de Alexandria e defensor ferrenho da plena divindade de Jesus, descrevia a salvação sobretudo como um retorno à união com a vida divina. Por termos sido criados do nada, cria Atanásio, temos a tendência de retroceder a um estado de nulidade quando separados da vida divina em razão do pecado. Isso é não apenas o resultado natural do pecado, mas também uma justa punição imposta por Deus. Todos os aspectos da fraqueza e da “corrupção” humana resultam, portanto, de nossa separação em relação à vida divina. Assim como Ireneu, Atanásio cria que Jesus havia remido a humanidade como um todo ao levar sobre si a justa punição de nossos pecados em sua morte (derrotando assim a morte e pondo termo a suas exigências legais sobre nós) e ao restaurar o vínculo que havia entre a natureza humana e a vida de Deus. O entendimento que Atanásio tinha a respeito da “corrupção” parecia insinuar que os perversos no fim seriam aniquilados, mas não se pode dizer que ele de fato tenha chegado a essa conclusão. O que talvez tenha defendido, em vez disso, foi a crença de que a condenação representava um deslize infindável rumo à nulidade sem nunca de fato alcançá-la ― crença mais tarde esposada por C. S. Lewis.

Gregório de Nazianzo (c. 325-389)

Sendo um dos teólogos “capadócios” que contribuíram para a formulação da doutrina da Trindade, Gregório de Nazianzo debateu o conceito da apocatástase defendido por Orígenes e se recusou a assumir uma postura conclusiva a respeito, quer contrária, quer favorável, preferindo deixar a questão nas mãos de Deus.

Gregório de Nissa (c. 335-394)

Gregório de Nissa, outro capadócio, baseou-se extensamente na obra de Orígenes e até mesmo na doutrina da apocatástase. Gregório gostava da imagem do fogo purificador, que elimina as impurezas do metal. Embora tenha por vezes mencionado a punição eterna, parecia entendê-la meramente como uma punição purgativa de longa duração e que no fim resultaria em salvação. A corrupção do corpo humano, como queria Gregório, é expurgada pela morte física, ao passo que a corrupção da alma é eliminada pelas punições pós-morte.

Gregório foi um dos mais destacados defensores da “teoria do resgate”, segundo a qual Jesus se ofereceu a Satanás em resgate pelas almas da humanidade pecaminosa. Quando Satanás morde a “isca”, acaba preso pelo anzol da divindade de Cristo, e assim a humanidade de Jesus conquista sua liberdade. Mas Gregório também afirma que essa derrota de Satanás é não apenas para o nosso bem, mas também para o bem do próprio Satanás, uma vez que ele também por fim será restaurado à união com Deus.

João Crisóstomo (c. 347-407)

João Crisóstomo foi acusado de “origenismo” como parte de uma caçada a heresias empreendida por motivações políticas, mas não parece que tenha defendido as opiniões de Orígenes sobre a apocatástase. Não raro, em seus sermões, ele fazia advertências acera da punição eterna. Em suas homilias contra os judaizantes, expôs o que percebia ser um “evangelho da prosperidade” proclamado pelos judeus, contrapondo-o ao ensino cristão mais modesto (e, portanto, mais genuíno): “Em nossas igrejas, ouvimos inúmeros discursos sobre as punições eternas, sobre o fogo que nunca se extingue, sobre o verme que nunca morre, sobre as cadeias que não se podem romper, sobre as trevas exteriores”.


© 2011 Christian History. christianhistorymagazine.org | Usado com permissão.

Tradução:voltemosaoevangelho.com

Permissões: Você está autorizado e incentivado a reproduzir e distribuir este material em qualquer formato, desde que adicione as informações supracitadas, não altere o conteúdo original e não o utilize para fins comerciais.


18 Comentários
  1. Eduardo Diz

    O que os cristão (sic) através da história creram a respeito do inferno?

    Olha o erro de digitação aí galera!

    Abraços!

  2. Missionário Roque Miller Diz

    Paz e graça! Ezequiel 33;7-11 nos deixa claro a necessidade de abordarmos o pecador, e leva-lo à um raciocínio lógico da sua natureza pacaminosa e o fruto do mesmo: morte, inferno…

    Fiquem e permaneçam com a Presença de Deus

  3. Everaldo Neri Diz

    A cerca do Inferno.

    Há várias teoria nas quais podemos estudar algumas delas com Orígenes (c. 185-254) dentre os outros.
    Na minha opinião inferno é algo que o homem não consegue explanar devido a misericórdia de Deus. Pois na nossa chegada onde Deus nos levar consigo seremos expostos e envergonhados dos nossos atos e também de atos de pessoas que pensamos não encontrar lá. Nesse caso quero deixar minha opinião acerca dessa assunto. O inferno é para Deus julgar e não cabe ao ser humano lembrar dele e sim cumpri a sua missão enquanto terra.

    Everaldo Neri

  4. Lucas Gonzaga Diz

    Amigo, ninguém gosta de falar do histórico da Inferno da tradição protestante, boa parte herdada do catolicismo. Não haveria base para dizer-se que o inferno pode ser temporário e até mesmo especular para que se chegue a um fim, com bases bíblicas é claro, que o Inferno pode simplesmente ser a inexistência.

    Uns falarão que o inferno é castigo e pronto. Mas os que afirmam isto têm dificuldade de enxergar a “inexistência” como castigo. Inexistência com certeza é um castigo….

    Fica a proposta, abraços!

    1. Débora Silva Costa Diz

      Amigo,
      “Deus não vai aniquilar os que não creem, pq ele não vai destruir criaturas feitas à sua imagem. Isso seria um ataque a si mesmo. Sua única escolha é isolar aqueles que o rejeitam. É isso que faz o inferno – ele coloca o mal, que é contagioso, de quarentena.” Norman Geisler e Frank Turek (extraído do livro ‘Não tenho fé suficiente para ser ateu’)

    2. Fernando Diz

      Lucas,

      Já pensei sobre essa ideia da inexistência e cheguei à conclusão de que ela pode ser perigosa no sentido de eximir o pecador, e até mesmo o crente que se desvia, de uma punição eterna. Ora, se não há punição eterna e a mesma é a inexistência, tudo bem se eu não conseguir ser um bom Cristão e abandonar a fé, porque no fim das contas o máximo que me pode acontecer é deixar de existir. E posso te falar por experiência própria: existem pessoas que, de tão decepcionadas que estão com a vida, chegam a desejar a inexistência. Eu mesmo já desejei isso em momentos de depressão.
      Por isso não creio na ideia da punição eterna ser a inexistência, embora seja constantemente tentado a crer nela.

    3. Lucas Gonzaga Diz

      =============

      É um erro pensar que inexistência não é castigo. E quem disse que a inexistência não será eterna? Inexistênci é horrendo castigo e eterno. O que não tem sentido, é pecar 80 anos e pagar cruelmente eternamente. Isso não diminui o pecado, não o exime.

      Quando estiveres com Cristo, depois daquel último dia, dará conta de quanto cruel é não existir.

      A bíblia, pela palavra “aion” dá um álibi para castigo temporário, isto, não eterno, mas creio que a melhor tradução seja “indefinido”…

      Abraços mano, senti-me confortado de ter se mostrado humano….

    4. Rodrigo Diz

      Também não tem sentido você pecar 80 anos e ir para o céu.
      Afinal quando somos salvos não paramos de pecar, continuamos cometendo milhares de pecados por dia.
      As pessoas tem que entender que se não fosse a misericórdia de Deus ninguem se salvaria.

      Quem somos nós pra questionar como Deus deveria fazer? Ou achar isso injusto?
      É muita arrogancia queremos falar ” Deus assim não ta certo deveria ser assim” Isso reflete o mesmo pecado da queda, querer ser igual a DEus.
      Nada novo debaixo do céu.

  5. Rodrigo Diz

    Olha, se ficarmos com as escrituras e tudo que Jeusus disse, nos evangelhos e no Apocalipse. O inferno é real, é eterno, foi feito para satanás e seus anjos, aqueles que rejeitaram a Cristo nessa vida vão para lá também com o corpo fisico ressucitado e não tem volta. A expressão castigo eterno e seu sofrimento não tem fim acho que são bem claros em Apocalipse.

    1. Vinícius S. Pimentel Diz

      É realmente assustador que a igreja moderna tenha um conhecimento tão pobre dos atributos de Deus que esteja disposta a negar o ensino claro das Escrituras a respeito do inferno.

      Segundo Jesus e todos os escritores inspirados, o inferno é real e é um lugar de tormento consciente e infindável, por toda a eternidade. Não é um lugar de purificação, mas de punição. É o lugar preparado para os inimigos de Deus, para todos aqueles que “desprezaram o conhecimento de Deus”, “amaram a criatura em lugar do Criador”, “se extraviaram” e “a uma se tornaram inúteis”, ficando “destituídos da glória de Deus”.

      Terrível coisa é cair nas mãos do Deus vivo!

    2. FILEMOM Diz

      VINICIUS, MEU IRMÃO, PAZ DO SENHOR.

      ACHEI OTIMA A SUA PARTICIPAÇÃO. SIMPLESMENTE BIBLICA.

      FICA COM DEUS

  6. Vinícius S. Pimentel Diz

    A série está sendo muito esclarecedora. Continuem!

  7. mario ferreira Diz

    DEUS NÃO SE EXPLICA – É TOLICE TENTAR – OU VOCÊ ACEITA O INEXPLICÁVEL OU NÃO.VAMOS VIVER COM ÉTICA E PRONTO. ESTAS SUPOSIÇÕES HUMANAS NUNCA LEVOU A LUGAR NENHUM, SÓ DISCÓRDIAS E GUERRAS. O NATURAL JAMAIS EXPLICARÁ O SOBRENATURAL.

    1. Vini Diz

      Paulo, então perdeu tempo escrevendo tantas cartas?

    2. Thiago Mattos Diz

      Paulo escreveu cartas tentando explicar o inexplicável?

      Não. Paulo pregou o Evangelho.

    3. Vini Diz

      Bom, Paulo falou sobre coisas que concluiria “O profundidade das riquezas, tanto da sabedoria, como da ciência de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis os seus caminhos!” (Romanos 11:33)

      Mas de fato há coisas há coisas não explicadas e mistérios. Não tenho problema nenhum com isso. De fato “as coisas encobertas pertencem ao SENHOR nosso Deus, porém as reveladas nos pertencem a nós e a nossos filhos para sempre, para que cumpramos todas as palavras desta lei. ”
      (Deuteronômio 29:29)

      Acredito que o Mario esteja negando a segunda parte.

  8. Carlos A. Mendes Diz

    Gosto muito de ler artigos dos “pais” a igreja. O que mais me choca é que pelo menos dentro desse assunto “a história do inferno” a visão desses homens é muito contaminada pelas filosofias pagãs. Isso é triste porque eles estavam mais perto dos Apóstolos do que nós hoje.

    Grato.

  9. Karina Diz

    O Inferno,

    Se a recompensa de Deus é a Vida Eterna, a inferno pode ser considerado a Morte Eterna, ou simplesmente a não existência espiritual, já que todo fruto podre precise ser jogado fora.
    Mas ai entramos em outro ponto, o significado da palavra “vida”, que tipo de vida? Espiritual, mental ou ambas? Sabemos que a vida carnal com certeza não é!
    O conceito INFERNO é totalmente poluído pelas religiões pagas, para refletir, talvez fosse melhor começar do 0, fingir que essa palavra nunca tenha sido pronunciada e descrita por outros.

Comentários estão fechados.