Salmo 32: A Misericórdia que nos assiste (Parte 5)

Este post faz parte da série Salmo 32.

1. No perdão de nossos pecados (1, 2, 5)

Somente o pecador arrependido que tem consciência da gravidade de seu pecado, de suas implicações e do santo amor de Deus, pode, de fato, alegrar-se com o perdão do Senhor.

O pecado, por mais promissor que se revele aos nossos olhos, sempre traz tristeza a todos, cedo ou tarde. A justiça de Deus quando aplicada em nosso coração, produz tristeza. Mas, como vimos, não termina dessa forma, antes produz arrependimento.

Destaquemos alguns pontos sobre a necessidade de arrependimento por parte dos crentes quando pecam.

Davi sofreu amargamente as consequências de seu adultério com Bate-Seba e o planejamento da morte de seu marido Urias. Embora ele não tivesse matado com suas próprias mãos o seu leal soldado, as suas mãos estavam manchadas do sangue de Urias.

Arrependido, escreveu: “Enquanto calei os meus pecados, envelheceram (balah)[1] os meus ossos pelos meus constantes gemidos (sheagah)[2] todo o dia” (Sl 32.3).

Davi só encontrou alívio quando declarou diante de Deus o seu pecado. Ele não mais tentou escondê-lo ou amenizá-lo. Não há eufemismos em nossa confissão sincera. Davi pinta com cores reais as suas faltas:

Confessei-te (yada) o meu pecado (hatã’â) e a minha iniquidade (‘ãwõn) não mais ocultei (kâsâh). Disse: confessarei (yadah) ao SENHOR as minhas transgressões (pesha’); e tu perdoaste a iniquidade (‘ãwõn) do meu pecado (hatã’â). (Sl 32.5).

No salmo 51, no mesmo contexto, escrevera anteriormente: “Pois eu conheço (yada) as minhas transgressões, e o meu pecado está sempre diante de mim” (Sl 51.3).

Da mesma forma no salmo 38:  “Confesso (nâgad)[3] a minha iniquidade (‘ãwõn); suporto tristeza por causa do meu pecado” (Sl 38.18).

Racionalizações e comprimidos

As nossas racionalizações complementadas por alguns comprimidos podem servir como paliativos durante algum tempo para a nossa alma intranquila, contudo, não atingem o cerne do problema; elas não resolvem a questão do pecado e consequentemente da culpa.

Aliás, o sentimento de culpa pode ser uma das bênçãos de Deus para que não nos entreguemos totalmente ao pecado. A culpa, nestes casos, é graça! Deus opera desta forma conduzindo-nos, pelo Espírito Santo, de volta a Ele mesmo. “A  ‘verdadeira culpa’ é a que resulta do julgamento divino”, acentua Tournier (1898-1986).[4]

O Senhor usou o profeta Natã como seu instrumento para proferir a Palavra de Deus, não as suas opiniões ou teorias. Somente a Palavra  pode curar nossas feridas restaurando a nossa alma. E, não há restauração espiritual sem o retorno a Deus; à nossa restauração primeira à comunhão com Deus.

O painel da culpa ou o indicativo de uma necessidade?

Se você estiver conduzindo o seu automóvel em uma estrada e o painel do óleo começa a piscar, o que você faria para resolver aquele incômodo? Pararia o carro com a firme possibilidade em mente de acionar o seguro? Ou, procuraria localizar a fim de retirar o fusível do painel que permite aquela luz que tanto me incomoda se acenda?

Psicologia e pregação

Culpa é um conceito legal e objetivo, resultante de uma condenação pelo fato de ter-se quebrado uma lei ou ordem objetiva.[5] Quem quebra a lei é culpado. Não há genuína culpa sem um padrão, e a sua transgressão. As Escrituras nos ensinam que todos nós como seres responsáveis que somos, tornamo-nos culpados por transgredir  a perfeita lei de Deus (Jo 8.34; Rm 5.12; 6.23; Ef 2.1).[6]

As psicologias, que obviamente, não são más em si, que invadiram os nossos púlpitos – isso sim é mal em si –,  em parte pela ausência de pessoas habilitadas para expor as Escrituras com autoridade e integridade, se misturaram com a teologia de tal forma, que conceitos, por vezes, totalmente estranhos à Palavra são difundidos com naturalidade sem que nem ao menos percebamos.

Lamento o que vou dizer. Mas, o que tenho observado ao longo dos anos, é que ministros inseguros teologicamente – por fazerem um curso malfeito, desinteresse teológico, mentes equívocas, gosto por surfar nas ondas dos modismos ou, por pura inabilidade teológica  –, quando se enveredam por outras áreas de estudo, o que poderia ser de grande utilidade para o seu pastorado, tende a se constituir no assunto recorrente de seus sermões, em geral, vazios de conceitos bíblicos.

Quando muito, as Escrituras servem apenas para convalidar temas requentados de suas áreas de maior atuação. O púlpito, nesses casos, virou um mero biscate (bico) “gambiárrico” de sobrevivência. A Igreja, então, sofre de inanição, buscando subterfúgios para complementar a sua carência. Nesses casos, o “Centrum” pode ser um bom complemento. Contudo, quando os fiéis não são bem instruídos na Palavra e nos seus Símbolos de Fé, quase nunca conseguem discernir o “Centrum Select” proveniente da Palavra,  do “Dramin” que tira o enjoo e proporciona um sono quase irresistível. Além do que, aquele se torna cada vez mais raro.

Um dos conceitos propalados nesta psicologização tão popular e, ao mesmo tempo, maléfica, é de que devemos eliminar o sentimento de culpa. Outro ensinamento associado a esse, é o da importância de cultivarmos uma elevada autoestima. Por isso, o ensino que ameace ainda que tenuemente o seu superlativo autoconceito, é rejeitado como não edificante. Afinal, participo do culto para sair mais leve e solto, não com tristeza ou pesar, queixa-se de modo frustrante.

Sem dúvida, prover recursos que aliviem o sentimento de culpa parecerá sempre bem-vindo, visto que tal sentimento é um incrementador de nossa ansiedade (Pv 28.1).[7]

Calvino denominou esta atitude de orgulho:

Desejosos de manter nossa autoestima, levamos muito a sério quando somos desprezados. Essa doença da natureza humana é tão generalizada que cada pessoa deseja que seus vícios agradem a outros. Se alguém nos desaprova por alguma coisa que fazemos ou dizemos, nos sentimos imediatamente ofendidos sem qualquer razão plausível. Que cada um de nós examine a si mesmo, e encontrará essa semente do orgulho em sua mente, até que a mesma seja erradicada pelo Espírito de Deus.[8]

Em síntese, devemos mimar a criança que há dentro de nós – o Peter Pan que se nega a amadurecer preferindo cultivar a sua alegria descompromissada[9] –, dizem. Como se a sensação de não termos culpa ou promover um alto conceito de nós mesmos mudasse a realidade do que somos.

Culpa e sentimento de culpa

Enquanto a culpa é objetiva, o sentimento de culpa é subjetivo. É nesta subjetividade que encontramos uma nuance de grande importância. Todos somos culpados mas, nem todos tem o sentimento de culpa. O não sentimento de culpa não nos inocenta.[10] Por sua vez, nem todo sentimento de culpa é resultado de uma real culpa. Ele pode ser derivado de uma interpretação errada associada, por exemplo, a usos e costumes aprendidos que não são em si mesmos atos pecaminosos mas, foi assim que você foi educado.[11] Deste modo, quando quebra algum princípio de sua educação, sente-se culpado por um “constrangimento social” (Freud).

Neste caso, o princípio que deve ser aplicado, é examinar biblicamente se  o que aprendemos como sendo pecado é de fato pecado. Outro ponto, que Sproul analisa, é a questão da fé e da consciência. Quando agimos sem fé, cometemos pecado porque pecamos contra nossa consciência.[12]

Sproul é bastante contundente:

A presença de sentimentos de culpa não indica automaticamente a presença de culpa objetiva com respeito a uma ação específica, mas pode representar a presença da culpa de agir contra a própria consciência. A conclusão é que, toda vez que experimentamos sentimentos de culpa, precisamos parar e perguntar a nós mesmos tão honestamente quanto possível: “Eu transgredi a lei de Deus?”.[13]

A culpa psicológica, que pode perdurar pela falsa ideia de pecado ou, pela compreensão equivocada da obra expiatória de Cristo e do completo perdão de Deus, deve ser superada biblicamente.[14]

No entanto, a autoestima não irá vencer o genuíno sentimento de culpa resultante de um pecado real. Somente o Evangelho pode nos mostrar o que realmente somos e como podemos nos tornar em Cristo.

Buber (1878-1965), tem um insight muito perspicaz:

Se Deus faz essa pergunta [“Onde você está?”], Ele não quer saber algo que ainda não saiba sobre a pessoa; Ele quer provocar alguma coisa nessa pessoa, algo que só pode ser provocado dessa maneira – com a condição de que a pergunta atinja o coração da pessoa, de que a pessoa se permita ser atingida no coração.

Adão se esconde para não ter de dar satisfações, para escapar da responsabilidade em relação à própria vida. Dessa maneira, todos os homens se escondem, pois todos são Adão e estão na situação de Adão. Para escapar da responsabilidade por sua vida, a existência é transformada num sistema de esconderijos.[15]

Sentimento de culpa como bênção

É necessário que se diga que o problema humano não é a culpa mas, sim, o pecado. Tendemos a criticar as consequências de nossos atos ignorando que a sequência é decorrente de escolhas nossas. Devemos considerar também, que o sentimento de culpa não é necessariamente resultante do pecado mas, da graça restauradora de Deus que deseja nos conduzir ao arrependimento de nossos pecados.

Por isso, uma das consequências do pecado é a culpa. “Quando Adão e Eva cometeram sua primeira transgressão, a vergonha e a culpa foram sentidas pela primeira vez na história humana”, escreve Sproul.[16] Ele está correto à luz do que escreve Paulo:  “Ora, sabemos que tudo o que a lei diz, aos que vivem na lei o diz para que se cale toda boca, e todo o mundo seja culpável  (dikoj)[17] perante Deus” (Rm 3.19).

O pecado não é uma invenção cristã, antes é a realidade do homem após a Queda, quando nossos primeiros Pais desobedeceram a Deus resultando tal ato em vergonha e culpa.


[1] Aplica-se à roupa envelhecida (Dt 8.4; 29.5; Js 9.5; Sl 102.26), sandália gasta (Dt 29.5; Js 9.5,13).

[2] A palavra gemido se aplica também: a) ao rugido do leão feroz: “Cessa o bramido (hg”a’v.)(sheagah) do leão e a voz do leão feroz, e os dentes dos leõezinhos se quebram” (Jó 4.10). “O seu rugido (hg”a’v.)(sheagah) é como o do leão; rugem como filhos de leão, e, rosnando, arrebatam a presa, e a levam, e não há quem a livre” (Is 5.29); b) ao rugido dos leõezinhos: “Este, andando entre os leões, veio a ser um leãozinho, e aprendeu a apanhar a presa, e devorou homens. Aprendeu a fazer viúvas e a tornar desertas as cidades deles; ficaram estupefatos a terra e seus habitantes, ao ouvirem o seu rugido (hg”a’v.)(sheagah)(Ez 19.6-7). “Eis o uivo dos pastores, porque a sua glória é destruída! Eis o bramido (hg”a’v.) (sheagah) dos filhos de leões, porque foi destruída a soberba do Jordão!” (Zc 11.3); c) gemido humano, quando, por exemplo, Jó em desespero amaldiçoa o dia do seu nascimento: “Por que em vez do meu pão me vêm gemidos (hg”a’v.) (sheagah), e os meus lamentos se derramam como água?” (Jó 3.24); d) bramido do Messias: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste? Por que se acham longe de minha salvação as palavras de meu bramido (hg”a’v.)(sheagah)?” (Sl 22.1).

[3] O sentido básico é de “declarar”, “publicar”, “anunciar”, “manifestar, “expor”.

[4] Paul Tournier, Culpa e Graça: uma análise do sentimento de culpa e o ensino,  São Paulo: ABU., 1985, p. 75.

[5] Veja-se: Culpa: In: Carl F.H. Henry, org. Dicionário de Ética Cristã, São Paulo: Cultura Cristã, 2007, p. 152-153.

[6] “Culpa é aquilo em que uma pessoa incorre quando transgride uma lei” (R.C. Sproul, O que posso fazer com minha culpa? São José dos Campos, SP.: Fiel, 2013, p. 6).

[7]“Fogem os perversos ([v’r’) (rasha) ( = ímpios), sem que ninguém os persiga; mas o justo é intrépido como o leão” (Pv 28.1/Lv 26.17,36; Sl 53.5). O caminho do ímpio ainda que por um momento pareça florescente, não prevalecerá; antes, perecerá (Sl 1.5-6). Ele se perde, sendo infrutífero (Sl 112.10; Pv 10.28; 11.7). Isto porque o juízo pertence a Deus (Dt 1.17). “Vi um ímpio prepotente a expandir-se qual cedro do Líbano. Passei, e eis que desaparecera; procurei-o, e já não foi encontrado. Observa o homem íntegro, e atenta no que é reto; porquanto o homem de paz terá posteridade”  (Sl 37.35-37). O cedro do Líbano é conhecido pela sua durabilidade e estatura (Ez 31.3; Am 2.9), podendo atingir 40 metros de altura.

[8] João Calvino, O Evangelho segundo João, São José dos Campos, SP.: Editora Fiel, 2015, v. 1, (Jo 4.9), p. 157. “Tão tendenciosas são as sutilezas, nas quais os homens orgulhosos buscam glória para si próprios, que subvertem a genuína doutrina do Evangelho, a qual é simples e despretensiosa” (João Calvino, As Pastorais, São Paulo: Paracletos,1998, (1Tm 6.20), p. 186).

[9] Veja-se:  J.I. Packer, A Redescoberta da santidade,  2. ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2018, p. 157-158.

[10] Veja-se o pequeno e excelente livro de Sproul. R.C. Sproul, O que posso fazer com minha culpa?  São José dos Campos, SP.: Fiel, 2013, p. 9-11.

[11] Veja-se: Paul Tournier, Culpa e Graça: uma análise do sentimento de culpa e o ensino,  São Paulo: ABU., 1985, p. 71ss.

[12] Veja-se alguns exemplos deste caso em R.C. Sproul, O que posso fazer com minha culpa?  São José dos Campos, SP.: Fiel, 2013, p. 11ss.

[13] R.C. Sproul, O que posso fazer com minha culpa? São José dos Campos, SP.: Fiel, 2013, p. 13-14.

[14] Sobre esses pontos, veja-se: Francis A. Schaeffer, Verdadeira espiritualidade, São Paulo: Editora Fiel, 1980, p. 144-156.

[15] Martin Buber, O caminho do homem segundo o ensinamento chassídico, São Paulo: É Realizações, 2011, p. 10.

[16] R.C. Sproul, Estudos bíblicos expositivos em Romanos, São Paulo: Cultura Cristã, 2011, p. 109.

[17] Termo jurídico que indica alguém evidentemente culpado, já não havendo possibilidade de defesa.