Um blog do Ministério Fiel
Como um pastor faz para escolher o que pregar em velórios, presídios e eventos diversos?
Episódio do Podcast John Piper Responde
Transcrição do vídeo
O Pr. John já teve oportunidades de pregar em diversos eventos e lugares diferentes, talvez um que seja bem marcante foi quando ele pregou em uma penitenciária em Louisiana — uma notória penitenciária de segurança máxima, um lugar onde a maioria dos detentos passará o resto da vida.
Agora, obviamente, a pregação expositiva através dos livros da Bíblia foi a norma do Pr. John quando era pastor e pregador principal em sua igreja, e essa norma vem com um roteiro — literalmente. Mas nem todo ministério se encaixa nesse fluxo previsível. Os funerais mudam as exigências a cada situação, dependendo da condição espiritual do falecido, da saúde espiritual da família enlutada e do seu nível de intimidade com as pessoas presentes. Ou talvez você seja convidado a orar em um evento esportivo ou a pregar dentro de uma prisão para uma sala cheia de rostos desconhecidos, uma oportunidade única. Quando surgem essas oportunidades que fogem do roteiro — quando não há um roteiro de série de sermões a seguir — como você discerne a vontade e a direção de Deus ao decidir o que pregar?
Para que minha resposta a essa pergunta faça sentido, acho que nossos ouvintes precisam saber o que quero dizer com “a vontade de Deus”. Então, supondo que meu objetivo seja pregar uma mensagem que seja a vontade de Deus para aqueles prisioneiros — o que quero dizer com “a vontade de Deus”? Quero pregar um sermão que esteja de acordo com a vontade de Deus. O que quero dizer com isso?
Vontade soberana e vontade moral
Bem, a primeira coisa que quero dizer com “a vontade de Deus” (tenho em mente pelo menos três usos) é a vontade soberana de Deus, que se refere a tudo o que acontece. “O meu conselho permanecerá firme”, diz Isaías 46.10, “e cumprirei toda a minha vontade”. Deus “faz todas as coisas segundo o conselho da sua vontade” (Efésios 1.11). Portanto, esse é o primeiro significado: vontade soberana. Tudo o que acontece é, em última análise, a vontade soberana de Deus.
Segundo: a vontade moral de Deus, que às vezes é chamada de sua vontade revelada. Isso se refere aos mandamentos das Escrituras: os Dez Mandamentos e passagens como o Sermão da Montanha ou Romanos 12.9-10, onde Paulo diz: “O amor seja genuíno. Detestem o mal; apeguem-se ao bem. Amem-se uns aos outros com amor fraternal” — e assim por diante, a vontade revelada de Deus se estende. Portanto, esse é o segundo significado da vontade de Deus. O que é revelado nas Escrituras que devemos fazer é a vontade de Deus.
De certa forma, você poderia dizer (e muitos dizem): “Essa é a totalidade da vontade de Deus nas Escrituras. Não existe uma vontade secreta de Deus, como com quem casar, em qual escola estudar, onde estacionar a bicicleta ou qual camisa vestir.” Muitas pessoas enlouqueceram ao pensar na vontade de Deus dessa maneira, e algumas tentaram resgatar outras dessa loucura dizendo: “Você é livre para usar a camisa que quiser, estacionar sua bicicleta onde quiser. Você não pode pecar contra algo que não tem mandamento, e Deus não colocou em seu livro qual camisa vestir — então, relaxe. Não se preocupe.”
Aplicando a mente de Cristo
Pessoalmente, não quero que as pessoas enlouqueçam. Mas não acho que as coisas sejam tão simples. Por isso, minha tendência é pensar em uma terceira via para falar sobre a vontade de Deus — ou seja, uma aplicação espiritualmente discernida da mente de Cristo a uma situação específica. Não é apenas racional; é mais do que racional. Não é irracional — é simplesmente mais do que racional.
Estou pensando em textos como Romanos 12.2: “Não se conformem com este mundo, mas transformem-se pela renovação da sua mente [É preciso uma mente renovada!], para que sejam capazes de experimentar e comprovar a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.” Ou Colossenses 1.9: “Nós… oramos por vocês… para que sejam cheios do conhecimento da vontade de Deus, em toda a sabedoria e entendimento espiritual.”
Agora, não acho que esses textos signifiquem: “Certifique-se de encontrar o mandamento certo na Bíblia e obedecê-lo”. Pode realmente importar, por razões espirituais, qual camisa você veste hoje (não costuma importar, mas pode importar), e pode importar, considerando tudo, onde você estaciona sua bicicleta hoje. Há mil coisas que podem influenciar essa decisão, tornando uma escolha melhor do que outra.
Sabedoria Humilde
E, na primavera passada, importou-me qual texto eu escolheria para pregar e como eu deveria pregar em uma prisão aqui de minha região, embora não haja nenhum mandamento na Bíblia que me diga qual texto escolher, quais ilustrações usar, o que enfatizar ou qual tom adotar. Nada disso estava na Bíblia.
Sei que uma forma de descrever o que eu precisava naquele momento era sabedori . Lembro-me do livro de Garry Friesen sobre a vontade de Deus, e toda a sua ênfase era que não precisamos de uma terceira via para falar sobre a vontade de Deus. Precisamos apenas de sabedoria para aplicar o que temos na Bíblia — sabedoria para pegar o conhecimento de Deus e o conhecimento de sua vontade revelada, e aplicá-lo sabiamente a uma situação, e então elaborar abordagens sábias para uma mensagem.
Mas eis o que tenho experimentado: ou seja, que essa sabedoria, ao tentar vivenciá-la e aplicar a verdade bíblica, é permeada pelas influências subjetivas do meu coração, e não apenas pela mente tentando descobrir como aplicar um texto — de modo que seria presunçoso da minha parte dizer que faço minhas escolhas nessas situações simplesmente porque sou sábio, porque sou uma pessoa sábia que aplica a Bíblia. Grande parte do processo está simplesmente fora do meu controle.
Então, eis como a decisão foi tomada, da melhor forma que me lembro — ou, mesmo que tenha acontecido ontem, da melhor forma que acho que sei (porque penso em muitas coisas que não sabemos sobre como tomamos decisões, mesmo enquanto as estamos tomando). Essa abordagem para a tomada de decisões não seria incomum em eventos ocasionais de pregação como este, como falar em uma prisão ou em alguma outra situação especial.
Definindo o texto
Então, acordei naquela manhã e deveria pregar às três horas da tarde naquele Centro de Detenção, para cerca de 120 homens presos, e ainda não havia preparado a mensagem. Tinha quatro horas reservadas naquela manhã. E, presente em minha mente, antes mesmo de qualquer decisão consciente da minha parte, estava Romanos 8 .
Isso foi surpreendente, em parte porque eu estava planejando, ainda que timidamente, abordar algo baseado em Filipenses 3.13: “Esquecendo-me das coisas que ficaram para trás e avançando para as que estão adiante”. Achei que seria um ótimo texto para homens que estavam na prisão e precisavam superar as consequências de seus atos passados.
Em vez disso, meu primeiro pensamento foi que Romanos 8 é o maior capítulo da Bíblia. (E eu realmente acredito nisso.) Se eu tiver apenas uma chance de falar, talvez eu deva abordar o maior capítulo da Bíblia. E meu próximo pensamento foi este (ou talvez não tenha sido um pensamento, mas um sentimento): “Eu amo este capítulo.” Eu amo a realidade que Deus comunicou neste capítulo. Eu o amo.
Bem, aquilo não foi uma decisão, certo? Não foi uma decisão. Não foi resultado de muita reflexão naquele momento. Foi uma experiência forte. Eu não escolhi isso, e essa forte afeição por Romanos 8 pode ter sido decisiva. Suspeito que tenha sido decisiva, mas eu não decidi amar Romanos 8 antes de sair da cama. Simplesmente aconteceu.
Meu próximo pensamento foi este: “Eu conheço este capítulo. Quase vivi neste capítulo a minha vida inteira. Aliás, sei-o de cor. Eu poderia recitá-lo para esses homens de memória.” Então, antes de me levantar da cama, com Noël ainda dormindo ao meu lado, fiz uma pausa e sussurrei Romanos 8 inteiro. Sim, eu ainda me lembro. Eu conseguiria fazer isso. Pensei que poderia ser impactante. Se eu olhasse diretamente nos olhos deles e, durante dez minutos, recitasse de memória, sem desviar o olhar, um capítulo inteiro da Bíblia — aposto que esses caras nunca ouviram isso antes. O que isso faria com eles, ou por eles? Pareceu-me uma boa ideia.
O pensamento seguinte foi: “Só tenho quatro horas para me preparar para isso, e é possível”. Filipenses 3 pode levar mais tempo do que eu tenho disponível, porque não o conheço tão bem quanto Romanos 8. Então, vocês podem ver como a praticidade influenciou a dinâmica espiritual do momento. (E isso é crucial.) Seria ingenuidade da minha parte dizer que isso não contou. Antes mesmo de sair da cama, a decisão estava tomada: Romanos 8. Vai ser Romanos 8 .
Definindo a abordagem
Tudo o que eu precisava fazer agora era descobrir: “Certo, quais partes de Romanos 8, neste capítulo tão grandioso, eu vou enfatizar?” E aqui, novamente, inclinações extremamente subjetivas se misturaram com o pensamento racional. Decidi focar em quatro pontos. (Por que quatro? Não sei.)
Eu recitaria o capítulo e depois começaria pelo início: “Nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus” (Romanos 8.1). Em seguida, iria para o final: “Em segundo lugar, jamais haverá separação de Deus, se você está em Cristo Jesus, e não há condenação”. Por fim, eu conectaria o início e o fim com meu versículo favorito em toda a Bíblia, Romanos 8.32, por causa da lógica que liga “nenhuma condenação pelo sangue de Jesus” a tudo de glorioso que receberemos no futuro.
E então me ocorreu: se eu fosse esses homens (ou se eu fosse apenas eu), ficaria com esta pergunta: “Certo, ouvi todas essas boas novas sobre não haver condenação se você está em Cristo. Será que estou? Como saber se você está em Cristo?” E isso determinou que meu foco final, meu ponto de vista final naquele capítulo, seria Romanos 8.13-15: “Como você pode saber se é filho de Deus?”
Então, esse foi o processo — exceto por uma coisa que eu não mencionei, e que talvez seja crucial, e aposto que nossos ouvintes sabem o que eu omiti. Por dias, eu estive orando, suplicando, suplicando ao Senhor para que me guiasse, me mostrasse, me mostrasse qual Escritura e qual abordagem seriam mais eficazes para a salvação. O que seria mais eficaz para fortalecer a fé? E sou muito, muito grato porque, acredito, Ele respondeu a essa oração.
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